Processo, ou o retorno do sujeito: Há sempre uma decisão sobre a decisão

Palestrante
Nivaldo Manzano
Data

Nas últimas décadas, na esteira das ciências cognitivas desenvolveu-se o conceito de enação (Varela, F. et al.- 1991), que assume o contexto como fato constituinte da cognição, inseparável do sujeito como ação no mundo, e não como representação do mundo; e no âmbito da fenomenologia da percepção, o sujeito como ação corporificada, ou ação da mente incorporada (Merleau-Ponty. M. – 1945; Chamayou, G. - 2015). É dizer que o objeto não é portador de qualidade intrínseca alguma: as suas propriedades mudam de acordo com a referência do contexto em que ele ocorre: cascalho pode ser um projétil ou pode ser material de alvenaria, entre outros modos, ou destinações, que se lhe deem). Essa postulação deixa para trás o dualismo mente-corpo, como se manifesta nas teorias alternativas da percepção: mecanismo reflexo de estímulo e resposta, ou sensações atomísticas (inarticuladas), serviçais de uma mente responsável por organizá-las na representação.

Mas, a despeito das contribuições de caráter empírico, uma vertente da epistemologia, encalhada há um século e meio na ciência positiva de Auguste Comte, reluta em se dissociar de uma prática metodológica que separa normativamente, o sujeito do objeto, suprimindo dessa maneira o que há de distintivo na mente incorporada, que é a liberdade contextual no exercício da autorrecorrência. Ao fazê-lo, esse paradigma trata a realidade como uma sintaxe, sobrepondo-se à pragmática, e encontra a sua expressão paroxística nas tecnologias de comando e controle da governança algorítmica, conhecida também como sociedade da vigilância. A governança algorítmica destina-se a produzir a dessubjetivação do sujeito mediante a sua objetivação imanente, agenciada pelo Big data, ao saturar o ambiente, interno e externo, virtual e real, de referências para a tomada de decisão, que o leva a assumir, sem se dar conta, que “você é o que o Google diz quem você é”.

Na visão de processo, que proponho expor aqui, ocorre o inverso, e a sua atualidade consiste em se assumir o corpo como interface entre o natural e o cultural (dimensões inseparáveis na sua interatividade), ou seja, em se reconhecer a autonomia do sujeito como ação no mundo, em contraposição às coações mecânicas, ou às representações (abstrações) assumidas nos paradigmas funcionalistas, entre os quais se inclui a teoria dos sistemas. Postula-se aqui como ação no mundo a livre interação contextual do corpo vivo com o seu umwelt (mundo próprio, que não se confunde com meio ambiente) na terminologia do biólogo Jacob von Uexküll (1982); corpo vivo e umwelt, como partes constitutivas, na sua dependência mútua, de uma mesma unidade contextual assim formada, inseparáveis uma da outra, tão íntimas como o peixe aquático e a água peixática: Um meio é somente meio para um organismo que o tem como meio somente seu.

Esta apresentação tem como proposta contribuir para o debate, buscando lançar luz sobre a visão de processo, como mais aderente à realidade no cotejo com as propostas concorrentes, por assumir a ideia de sujeito como ação no mundo, que tem no ser humano a sua referência contextual como ponto de indução. (Nietzche: Toda metafísica do Ocidente está vinculada não somente à sua gramática, mas aos que, apossados do discurso, detêm o direito à palavra.

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Cadernos de História e Filosofia da Ciência (CHFC)

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