Apresentação

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Nas últimas décadas, o desenvolvimento da teoria da informação e da sistêmica em geral, bem como suas contribuições às áreas das ciências físicas, matemáticas e humanas, têm suscitado a reflexão científica e filosófica sobre as noções de ordem, organização, auto- organização, informação e criação. A ideia de um mundo naturalmente organizado, porque submetido a leis, parece estar sendo substituída por outro enfoque: a organização é vista, cada vez mais, como constituída de fenômenos de auto-regulação, auto-reprodução, auto- desenvolvimento e de criação. A ênfase sobre organização e desorganização, ou sobre ordem e desordem, parece assinalar o advento de um novo paradigma filosófico e científico: à consideração das cadeias causais lineares - ou de conexões lógicas lineares entre princípios e consequências - vem se acrescentar a consideração de fenômenos complexos caracterizados por cadeias causais não-lineares, fenômenos esses que podem ser mais ou menos organizados ou não-organizados, ordenados ou desordenados.

O enfoque sobre a complexidade nunca deixou de estar presente. Entretanto, entre o final do século XVIII e dos anos 1950, a tendência do pensamento dominante era identificar a ordem à existência de leis no universo. Nessa perspectiva, não havia muito a ser dito sobre a ordem, além de constatá-la e, havendo leis deterministas ou probabilísticas em toda parte, não se podia conceder muito lugar à noção de desordem, a não ser em campos específicos. Nas últimas décadas, todavia, parece haver certa aproximação entre as disciplinas científicas e as suas epistemologias, no que diz respeito ao uso das noções de ordem e desordem: os cientistas, de modo geral, admitem que as ideias de ordem implicam uma hierarquia entre os fenômenos de uma mesma área do conhecimento - mas rejeitam simultaneamente a concepção de ordem ou organização como sendo um "dever ser", ou seja, uma exigência que a natureza ou a sociedade teriam de cumprir. Tais reflexões, entretanto, não alteram necessariamente os princípios básicos que definem a racionalidade; representam algo mais do que a introdução de simples "teorias de médio alcance" e possibilitam um novo estilo de pensamento, ao mesmo tempo científico e filosófico, que contempla a complexidade - nesse sentido, pode-se falar de um alargamento do horizonte da racionalidade.

O Grupo Interdisciplinar CLE Auto-Organização, idealizado e criado por Michel M. Debrun em 1986 no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da UNICAMP (CLE), é constituído por docentes e pesquisadores da UNICAMP, da UNESP e de outras universidades brasileiras. O objetivo central do Grupo é realizar pesquisas sobre o conceito de auto-organização e as possibilidades de sua aplicação em áreas específicas do conhecimento, buscando a identificação de fenômenos caracterizados como auto-organizados. O Grupo tem desenvolvido pesquisa bibliográfica, realizado seminários periódicos, editado publicações, promovido intercâmbio acadêmico, organizado eventos científicos e recebido apoio de instituições nacionais e internacionais de fomento à pesquisa. É nesse espírito que o Grupo vem estudando problemas relacionados às noções de ordem, organização, autopoiese, complexidade, auto-organização, hetero-organização, informação, criação e outras correlatas.

Em 1987 o Grupo CLE organizou uma Sessão sobre “Ordem e Desordem” durante a 39a Reunião Anual da SBPC, realizada em Brasília. No mesmo ano, o CLE realizou o “Colóquio CLE 10 anos - Ordem e Desordem”, comemorativo dos 10 anos de sua criação, coordenado por Debrun, com a participação de especialistas de diversas áreas do conhecimento e de diferentes universidades brasileiras; entre as tendências que se delinearam durante os debates, uma se impôs, identificando “auto-organização” como um processo de possível geração de ordem. Nesse sentido, desde 1990 e após um estudo sistemático de parte da literatura sobre ordem e desordem, o Grupo CLE centralizou seu debate em torno das noções de auto-organização, informação e suas interrelações, a informação sendo vista como um ingrediente fundamental de certos processos de auto-organização; e, mais recentemente, vem incorporando o estudo da auto-organização no contexto sistêmica, ou ciência dos sistemas da teoria dos sistemas dinâmicos, dos sistemas complexos. Outros tópicos de atual interesse do Grupo são: auto-organização e criação; auto-organização e identidade pessoal; sistemas complexos; auto-organização, atenção e aprendizagem; auto-organização e memória; auto-organização e informação; e auto-organização na biologia.

Convém destacar a contribuição relevante de pesquisadores que já participaram efetivamente do Grupo: A. M. Sette (falecido em 1999), A. R. Moreno, E. Albano, E. Françozo, J.J. da Silva, M.L. Michael B. Wrigley, Andrade Neto, N. Bernardes, N. Piqueira, R. Luzzi e V.M.F. de Lima, entre outros.

Pode-se também ressaltar a participação nos Seminários e outros Eventos do Grupo, como conferencistas, de B. Slater (Western Australian University), C. Pizzi (Universitá degli Studi di Siena), G.G. Granger (Collège de France), H.R. Brown (Oxford Univ.); J.A.S. Kelso (Florida Atlantic Univ.); M. Dascal (Tel-Aviv Univ.); S. French (Univ. of Leeds); P. Bourgine (Centre de Recherche en Epistémologie Appliée), P.J. Verschure (Institute of Neuroinformatics of Zurich), T. Tyskzka (Universidade de Varsóvia), entre outros.

Além dos eventos já mencionados, o Grupo realizou 9 Colóquios Michel Debrun (1998- 2011); e colaborou na realização dos 9 Encontros Brasileiro Internacional de Ciências Cognitivas (EBICC I – IX) anos e dos 7 Encontros Internacional de Informação, Conhecimento e Ação (EIICA I – VII), organizados pela Sociedade Brasileira de Ciência Cognitiva. As publicações decorrentes das atividades desenvolvidas pelo Grupo estão reunidas em 6 volumes da Coleção CLE, editada pelo CLE, todos com apoio FAPESP (ver Projetos Anteriormente Apoiados pela FAPESP); os 5 volumes da Coleção Estudos Cognitivos (decorrentes dos eventos acima citados), publicados pela editora Cultura Acadêmica e pela Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP/Marília, contaram com a colaboração do Grupo. Podem ser também destacadas mais de 50 dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas, orientadas por pesquisadores deste Projeto de Pesquisa.

No período de 1996-1998, a FAPESP apoiou o Projeto “O Conceito de Auto-Organização e suas Aplicações em Diversas Áreas do Conhecimento” (Processo n. 1996/01429- 3), que permitiu consolidar as atividades do Grupo nas suas diferentes vertentes. Desde 2010, o Grupo conta novamente com o apoio da FAPESP com o desenvolvimento do Projeto Temático “Sistêmica, Auto-Organização e Informação” (Proc. 2010/52627-9). Em função deste apoio, foi possível a criação do ‘Observatório Auto-Organização’ que possibilitará a disseminação de informação concernente aos vários temas do Projeto, e propiciará a manutenção de arquivos para a disponibilização dos dados e resultados produzidos durante a evolução das diferentes linhas de pesquisa.

O Prof. Michel M. Debrun coordenou as atividades do Grupo até o seu falecimento, no início de 1997. Desde então, a Profa. Itala Maria Loffredo D’Ottaviano assumiu a Coordenação do Grupo