Wittgenstein Compreensão: Adestramento, treinamento, definição
Synopsis
Wittgenstein – Compreensão: Adestramento, Treinamento, Definição (digital)
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“Após o 'Tractatus, Wittgenstein enfrenta novos desafios legados pelas dificuldades do livro, uma delas sendo a de esclarecer as relações lógicas no interior do espaço lógico das coisas, ou objetos - dual do espaço dos estados de coisas, mas, que permaneceu inexplorado pela análise lógica — apesar de os objetos possuírem propriedades internas determinadas a priori, assim como as proposições.
Um outro aspecto sob o qual surge esta mesma questão é a da relação entre nome e objeto/coisa que fica meramente indicada no livro como sendo de substituição (Vertretung), sem mais detalhes. À dificuldade é que o livro não fornece critérios para indicar o que é objeto e o que é nome, a não ser um critério vago e abstrato: objeto é o logicamente simples que o nome substitui na proposição, e nome é o que substitui na proposição o logicamente simples. Todavia, não há como saber se estamos na presença de um simples, a não ser pela aplicação a ele do nome, mas, por outro lado, não sabemos se estamos aplicando uma palavra como nome a não ser pelo fato de substituir um simples na proposição. Situação circular que em nada esclarece a relação de substituição e nem fornece critérios para indicar os dois termos envolvidos na relação.
Ora, se para sabermos a denotação de um nome for sempre preciso dominar previamente uma linguagem, 1.e., as proposições que indicam qual é essa denotação, não poderemos, então, jamais explorar logicamente o espaço das coisas — tarefa a que se propõe exclusivamente a realizar o Tractatus. Fica descartada, de fato, toda e qualquer exploração externa à lógica, atividade formal e a priori, ou melhor, transcendental — embora seja apontada a porta que permanece fechada, da pragmática, 1.e., do uso do simbolismo, de sua aplicação (Anwendung) (Tr. 3.262-3.263), a qual permitiria explorar esse espaço que permanece virtual no Tractatus. Usando a terminologia tractariana, poderíamos afirmar que a partir do final da década de 20 Wittgenstein se dedica a explorar o espaço tractariano das coisas — o que acarretará muitas surpresas e descobertas a respeito da significação.
Uma consequência, dentre outras, da tentativa de explorar o domínio dos objetos simples, após o T'ractatus, está presente no tratamento dado às relações elementares entre linguagem e mundo — os pontos de contato, ou as antenas com que as proposições tocam os objetos. Surge, então, nova concepção da significação linguística em que a atividade com as palavras torna-se relevante — sem que a descrição dos usos o seja, todavia, de processos empíricos ou psicológicos. A própria concepção da função transcendental passa a incorporar elementos pragmáticos sem abrir mão dos procedimentos formal e a priori, nas descrições terapêuticas que Wittgenstein desenvolve até o final de sua atividade filosófica.
Conceitos que jamais poderiam ter lugar no Tractatus são introduzidos gradativamente durante a elaboração da nova concepção de significação — tais como os de adestramento, ensino ostensivo e definição ostensiva do sentido. Todavia, como salientamos, ainda que sejam descritas ligações puramente associativas ou mecânicas - como no caso das formas elementares de organização da experiência pelas técnicas de ensino por adestramento e por treino, ou por mera repetição — todavia, a compreensão da finalidade destas técnicas, por parte do aprendiz, supõe sua inserção em uma lição (Unterricht), em um ambiente cultural já dominado por alguma forma de linguagem, a qual, embora elementar, já seja suficiente para orientar o aprendiz a interpretar essas técnicas. A linguagem é usada pelo professor, em meio a gestos e comportamentos, para adestrar o aprendiz a agir com palavras. Somos adestrados a usar sons como palavras, em seguida, somos treinados a aplicar as palavras - talvez como etiquetas - e, só então, podemos perguntar por seu sentido e falar às coisas e sobre elas.
A parte inicial das Investigações Filosóficas, até por volta do 4136, trata justamente desta questão que ficara em aberto no Tractatus, da natureza logicamente simples do objeto e de sua relação com o nome — para, só a seguir, retomar a questão mais ampla da significação proposicional. É nesse início que são introduzidos os novos conceitos pertencentes ao domínio pragmático — correspondendo à exploração, poderíamos dizer, em homenagem ao livro de juventude e, ao mesmo tempo, demarcando-a dele, do espaço pragmático das coisas, ou objetos. Advirão, daí, várias consequências para as concepções de proposição e de pensamento — consequências consideradas terapêuticas pelo próprio Wittgenstein.
Como vemos, esta problemática wittgensteiniana envolve vários aspectos que podem ser explorados, tanto internamente ao seu próprio pensamento, quanto em ligação com outros temas e domínios aparentados. Trata-se de ampla gama de questões filosóficas, envolvendo o livro da juventude e a obra posterior, que estabelece conexões com áreas onde a compreensão e o ensino do sentido estão em primeiro plano, o tratamento de termos psicológicos e suas aplicações epistêmicas, assim como com áreas do pensamento formalizante e, também, com novas vertentes inspiradas e, igualmente, abrangidas pelas diferentes fases do pensamento de Wittgenstein. Foi este o desafio que propusemos nesta versão do Colóquio Wittgenstein — e a variedade de trabalhos selecionados atesta a riqueza e a unidade do pensamento de nosso filósofo.
Por isto, apresentamos os trabalhos segundo temas gerais que servem para organizar as leituras e, sem determinar temas comuns, para expressar, como dissemos, a unidade do trabalho de Wittgenstein. Estes são mais alguns aspectos de seu pensamento — aprendamos com eles.
Arley R. Moreno (org.)
Coleção CLE – 2014
ISSN: 0103-3147
Índice para catálogo sistemático
- Filosofia austríaca 193
2. Linguagem — Filosofia 401
References