Auto-organização: estudos interdisciplinares

Authors

Ítala M. Loffredo D'ottaviano
Maria Eunice Q. Gonzales

Synopsis

Auto-organização: Estudos Interdisciplinares (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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“O presente volume Auto-organização: estudos interdisciplinares, foi elaborado a partir de pesquisas dinamicamente desenvolvidas pelos membros do Grupo Interdisciplinar CLE - Auto-organização e Informação do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp. Dada sua natureza interdisciplinar, o grupo reúne pesquisadores de várias áreas do saber, notadamente da filosofia, ciência cognitiva, lógica matemática, engenharia, física, biologia, motricidade humana, psicologia, medicina e música. Trata-se aqui de dar continuidade às pesquisas iniciadas no CLE em 1986, sob a coordenação do professor Michel Debrun, que, com seu falecimento em 1997, deixou um enorme vazio entre nós. Contudo, como não poderia deixar de ser no caso de Debrun, esse vazio é dinâmico e assume inúmeras formas criativas. Como o leitor poderá verificar, sua memória está presente na maioria dos capítulos aqui apresentados.

Seguindo as trilhas iniciadas por Debrun, os autores procuram desenvolver muitas de suas idéias, aplicando-as em áreas diversas do saber, que foram aqui agrupadas em três partes, organizadas do particular para O geral. Assim, a primeira parte trata dos processos de Auto-organização na ação e no pensamento humano; a segunda situa os processos de Autoorganização na biologia, analisando as suas possíveis aplicações nos seres vivos; a terceira parte traz contribuições para o estudo de sistemas e dos processos de auto-organização no universo físico em geral. O leitor está convidado a participar do nosso entusiasmo na descoberta da rica dinâmica do processo de Auto-organização, que parece se aplicar às mais diversas formas da existência, de acordo com a sua área de interesse. As três partes são relativamente independentes e podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo do seu entendimento.

A Parte I inclui os Capítulos 1, 2, 3, 4 e 5, todos voltados para o estudo dos processos de auto-organização nos seres humanos e de suas criações mecânicas. No Capítulo 1, Auto-organização na ação humana e o naturalismo esclarecido: o modelo de Michel Debrun, Renato Schaeffer desenvolve estudos sobre Auto-organização a partir da perspectiva que o autor denomina “naturalismo esclarecido”. Este opõe-se tanto ao dualismo transcendentacionalista intracerebral como ao atualismo fisicalista. Apoiando-se nas idéias de Debrun, Schaeffer argumenta em defesa da tese anti-representacionista, segundo a qual o fenômeno da percepção sensorial é “...algo como uma apresentação”, dispensando qualquer forma de representação mental. O autor mostra, de maneira bastante instigante, que essa tese encontra um rico ambiente no paradigma da Autoorganização. No Capítulo 2, O papel da atenção no comportamento motor: o processo de auto-organização em destaque, Ana Maria Pellegrini analisa o mecanismo da atenção na relação do organismo com o seu meio ambiente, evidenciando a idade mental e o acoplamento entre percepção e ação no controle da postura. A autora desenvolve também considerações sobre o papel da atenção nos processos de auto-organização, os quais ela entende que se fazem presentes em variadas formas de comportamento motor. No Capítulo 3, Auto-organização, autonomia e identidade pessoal, Maria Eunice Quilici Gonzales, Mariana €C. Broens e Juliana Serzedello analisam o problema da identidade pessoal na sua formulação atual da filosofia da mente. Apoiando-se nos princípios de causalidade circular e de condicionalidade dos estados disposicionais (emergentes da dinâmica presente no acoplamento entre percepção e ação), as autoras propõem uma estratégia de análise do processo de formação de identidade pessoal em sistemas processadores de informação. Especial ênfase é dada ao caráter auto-organizador do processo de geração de hábitos que, para elas, constitui a marca principal da identidade pessoal. No Capítulo 4, Carmem Beatriz Milidoni e Erberth Eleutério dos Santos, em O “eu” do Projeto Freudiano na perspectiva da auto-organização, investigam o conceito de “Eu” do Projeto sob a ótica da auto-organização. Tal investigação é realizada nos moldes da filosofia da mente, acrescentando-se uma proposta de conceituação do “eu” na perspectiva neo-mecanicista da abordagem da auto-organização. De maneira muito habilidosa, os autores defendem a hipótese que o “eu” do Projeto pode ser considerado, “de alguma maneira... “sujeito” à luz do paradigma da auto-organização.” No Capítulo 5, Jônatas Manzolh, Paul Vershure e Maria Eunice Quilici Gonzales, em Autoorganização, criatividade e cognição discutem o tema da criatividade à luz da teoria da Auto-organização. Adotando a hipótese de Peirce, segundo a qual o processo de criação possui uma lógica subjacente, que caracteriza o raciocínio abdutivo, os autores analisam a (im)possibilidade de se mecanizar o processo de criação em robôs que, em princípio, se auto-organizam. Em particular, o tema da criatividade é abordado através de um experimento com um robô, Khepera, num contexto de criação musical.

icações do paradigma da Auto-organização na biologia. O Capítulo 6, Coerência, entropia e consciência, de autoria de Alfredo Pereira Jr. e Armando Freitas Rocha relaciona tópicos da filosofia da física, biologia e psicologia. Os autores defendem a hipótese de que em sistemas abertos mantidos em estado de baixa entropia (seres vivos) é possível a formação de estados de coerência quântica que constituem a base biofísica dos fenômenos da consciência, descritos na filosofia da mente e na ciência cognitiva atuais. A formação desses estados ocorreria em concordância com os processos de auto-organização. Tais processos possibilitam, na opinião dos autores, a emergência de estados de consciência em alguns sistemas mantidos em estado de baixa entropia. No Capítulo 7, Hierarquia autoorganizada em sistemas biológicos, Gustavo Maia Souza e Angelo Gilberto Manzatto apresentam uma concepção sistêmica do universo biológico, caracterizando os elementos essenciais para a formulação de uma teoria biológica de sistemas hierárquicos auto-organizados. Os autores argumentam que a hierarquia dos sistemas complexos, longe do equilíbrio té termodinâmico, constitui “...a própria causa desse fenômeno, possibilitando o aumento de complexidade”. No Capítulo 8, Estruturas Dissipativas e auto-organização, Vera Maura Fernandes de Lima apresenta exemplos de estruturas dissipativas que se manifestam em certos processos de auto-organização cerebral. Concebendo o cérebro como um meio excitável, longe do equilíbrio, a autora apresenta evidências que apóiam a hipótese de que tais estruturas dissipativas estão subjacentes aos “...estados cerebrais manifestados clinicamente como enxaqueca clássica, epilepsia, amnésia global transiente e outras síndromes funcionais”. No Capítulo 9, Modelagem hipercíclica da geração do código genético, Carlos Henrique Costa Moreira, Romeu Cardoso Guimarães e Ana Raquel Teixeira discutem questões relativas à origem da vida, do tipo: como é que “...um conjunto de macromoléculas se organiza em estruturas com variedade funcional capazes de armazenar e recuperar informação necessária para controlar o ... conjunto de reações químicas que ocorrem no interior de um organismo”. A sugestão dos autores é que o conceito de auto-organização parece ser necessário para a explicação de fenômenos dessa natureza e para o entendimento dos processos evolutivos. No Capítulo 10, O que orienta a evolução biológica, Luiz Henrique Alves Monteiro e José Roberto Castilho Piqueira analisam a dinâmica de sistemas complexos auto-organizados, entre os quais se encontram os seres vivos. Adotando a hipótese de que os seres vivos são sistemas simultaneamente termodinâmicos e informacionais, os autores definem os conceitos de entropia termodinâmica e entropia informacional discutindo suas relações com a evolução da vida na terra. No Capítulo 11, O conceito sistêmico de gene — uma década depois, Romeu Cardoso Guimarães e Carlos Henrique Costa Moreira desenvolvem um detalhado estudo do conceito de gene. Questões sobre a origem dos genes e sua função nos sistemas vivos, bem como o papel do processo de auto-organização na origem dos genes, são tratadas pelos autores no contexto da comunidade dos geneticistas. Os conceitos bioquímico e natural de gene são introduzidos, propondose um olhar binocular no estudo dos produtos gênicos e de “...suas ligações que organizam a teia metabólica”.

Na Parte III, que reúne os Capítulos 12, 13 e 14, o domínio de estudos dos processos de auto-organização é ampliado, de modo a abranger os sistemas complexos em geral. A forma de apresentação dos capítulos preserva aqui parte das discussões que os autores realizaram com os membros do Grupo CLE Auto-organização. No Capítulo 12, Conceitos básicos de sistêmica, Ettore Bresciani Filho e Itala Maria Loffredo D'Ottaviano apresentam um trabalho de elaboração de conceitos e definições fundamentais da ciência dos sistemas e dos processos de autoorganização. Noções básicas como as de universo, relação, estrutura, ordem, organização, entre outras, são cuidadosamente definidas com o objetivo de fornecer subsídios para os estudos dos sistemas complexos e dos processos de auto-organização. No Capítulo 13, A posição exata da questão da Forma, lulo Brandão apresenta uma análise da noção de forma na historia da filosofia, situando no seu interior o conceito de autoorganização. Dirigida para um público multidisciplinar, essa conferência apresenta, didaticamente, argumentos em defesa da hipótese de que “...Se por auto-organização devemos entender um processo em que os entes... se inter-relacionam engendrando uma ordem que, como tal, prescinde de um núcleo ordenador, transcendente ou imanente que se lhe imponha, somos, então, coagidos a reconhecer que, provavelmente, poucas doutrinas filosóficas lograram alcançar tal objetivo.” No Capítulo 14, Origem do Cosmos e auto-organização na obra de Charles Sanders Peirce, Lauro Frederico Barbosa da Silveira analisa importantes passagens da obra de Pierce que evidenciam uma concepção evolutiva, não determinista e autoorganizada do universo, inclusive de suas leis. Sem fazer referência explícita ao termo auto-organização, o autor ilustra a sua presença na visão Peirceana do universo: “...a lei que concretiza o princípio da aquisição de hábitos evolui neste próprio processo. Leis darão lugar a outras leis, pois elas nada mais são do que o desdobrar da razão no universo, a expressão dos hábitos adquiridos.” Essa lei, como ressalta Peirce, deve ser tal que “.. possa surgir e se desenvolver por si mesma.” A belíssima seleção dos textos de Peirce realizada nesse capítulo sugere que investigações sobre a natureza dos processos de auto-organização foram iniciadas muito antes do que poderiam supor os atuais estudiosos do tema.

O leitor irá constatar, à medida em que percorra dinamicamente a leitura dos capítulos, que novas estruturas informacionais podem emergir, espontaneamente, no seu domínio próprio de atuação. Nesse sentido, será fácil verificar os passos que se vão delineando no próprio processo de criação. Afinal, uma das características mais interessantes dos processos de auto-organização reside justamente na dinâmica interativa dos seus elementos, que podem dar lugar à emergência de novas estruturas informacionais!

A produção deste volume só foi possível graças à colaboração de inúmeros pareceristas ad hoc, aos quais manifestamos nosso agradecimento. Agradecemos também ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

No final de 1996 a FAPESP passou a apoiar o Projeto Auto-organização: estudos interdisciplinares, sob a coordenação do Prof. Michel Debrun. Em 1997, alguns meses após sua morte, a FAPESP autorizou a Prof. Itala M. Loffredo D'Ottaviano a assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento do projeto.

 Essa autorização da FAPESP foi fundamental para que o Grupo CLE Auto-organização se esforçasse por manter o trabalho coletivo e garantir a continuidade de sua proposta inicial. Passamos a nos sentir responsáveis por um projeto que só poderia ser desenvolvido sob a liderança de um intelectual do porte de Debrun, o que não era o caso de nenhum dos membros do Grupo.

Nada mais natural e justo e, para nós, profundamente gratificante, do que dedicarmos o resultado deste nosso trabalho à memória do querido Michel Debrun.”

Itala M.L. D'Ottaviano

Maria E.Q. Gonzales (Orgs.)

 

VOLUME 30 – 2000

ISSN: 0103-3147

 

Índice para catálogo sistemático:

  1. Sistemas auto-organizadores 001.533

OBS. Novamente, livro que trata da Auto-organização. Diferentes definições têm sido dadas para essa idéia, que corresponde a uma intuição vaga e excitante de que novas estruturas podem emergir, se desenvolver ou se reordenar essencialmente a partir delas próprias. Será mesmo que existe algo como “auto-organização”, que não seja justificável a partir das modalidades correntes da explicação? O leitor é convidado a desvendar este mistério a partir de sua própria área de conhecimento. Desta feita, quatorze artigos são apresentados, percorrendo as mais diversas áreas.

References

Coleção CLE - Volume 30

Published

November 21, 2000

How to Cite

M. LOFFREDO D'OTTAVIANO, Ítala; Q. GONZALES, Maria Eunice. Auto-organização: estudos interdisciplinares. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP),2000. v. Coleção CLE - Volume 30 Disponível em: https://www.cle.unicamp.br/ebooks/index.php/publicacoes/catalog/book/108. Acesso em: 17 jun. 2026.