O realismo naturalista de Quine: crença e conhecimento sem dogmas
Synopsis
O realismo naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas (digital)
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Resumo
“Este livro de Marcos Bulcão Nascimento, O Realismo Naturalista de Quine: Crença e Conhecimento sem Dogmas, aborda com profundidade a doutrina epistemológica e ontológica de um dos maiores filósofos do século XX, se não o maior, William van Orman Quine. No universo da assim chamada filosofia analítica, Quine é um dos raros filósofos — juntamente com Carnap, por certo — que nos legou um sistema filosófico, à maneira dos clássicos. Com efeito, a obra filosófica de Quine aborda, de modo abrangente e articulado, interconectando-os ordenadamente, alguns dos problemas mais candentes da filosofia contemporànea, tais como a natureza do conhecimento e da ciência, a relação entre ciência e filosofia, entre ciência e ontologia, entre conhecimento e Jinguagem, entre conhecimento e experiência, o papel e o estatuto da lógica, a questão da falibilidade do conhecimento, a noção de progresso da investigação científica. Esses problemas todos, Marcos Bulcão Nascimento os estuda e examina com cuidado neste livro, à luz da reconstrução, que empreende com competência e êxito, do sistema doutrinário quineano.
O livro é redigido com elegância, simplicidade e clareza, relacionando de modo preciso e adequado os diferentes temas que Quine abordou em dezenas de diferentes escritos, dos quais nosso autor mostra um extraordinário e extensivo conhecimento. Esses muitos escritos quineanos são pertinentemente invocados na exposição e comentário de cada assunto tratado, comparecem para iluminar cada questão e situá-la convenientemente na ordem das razões que estruturam a doutrina, como um todo. À filosofia de Quine é extraordinariamente rica e complexa, o livro de Bulcão Nascimento vai-nos descobrindo e revelando o sentido e alcance que os textos estudados nem sempre nos exibem numa primeira abordagem, porque somente sua inserção no sistema e suas interconexões com outros textos e passagens da obra permitem sua apreensão. Quine, como a maioria dos filósofos sistemáticos, desenvolve, em seus diferentes escritos, aqui um aspecto de sua doutrina, ali outro, cabendo ao estudioso e intérprete o estudo e a análise cuidadosa e comparada de todos esses aspectos e desenvolvimentos doutrinários. Bulcão Nascimento desincumbiu-se dessa tarefa. A doutrina quineana sofreu algumas mudanças ao longo das décadas em que o filósofo a construiu paulatinamente, e ele próprio, aliás, reconheceu essas mudanças. Nosso autor assinalou-as devidamente, comentou-as, ao mesmo tempo em que nos mostrou, de modo convincente, que elas não atingiram o essencial do sistema quineano, mas tão-somente o expandiram e enriqueceram, preservando sua estrutura e suas principais linhas de força. Atenção especial foi dada na pesquisa de que resultou este livro aos últimos escritos de Quine, mostrando-nos sua importância para a elucidação de tópicos fundamentais da obra do filósofo.
Bulcão Nascimento não deu maior atenção aos comentadores de Quine nem às polêmicas que alimentaram com o filósofo sobre tópicos variados de sua doutrina. Pouco afeitos ao rigor da análise estrutural dos sistemas filosóficos, os filósofos analíticos frequentemente se permitem criticar pontualmente uma doutrina sistemática, julgando — indevidamente, aos olhos de Bulcão Nascimento e aos meus — cabível a proposição filosófica e polêmica de pontos de vista pontuais sobre este ou aquele tema, separada e independentemente da formulação de uma visão filosófica mais geral que englobe esses posicionamentos parciais e lhes forneça a devida sustentação doutrinária. Em suas réplicas a alguns deles, o próprio Quine com fregiência manifestou algum mau humor e desembaraçou-se deles e rejeitou-os muito rapidamente. Nosso autor, de algum modo, comungou desse mau humor e se mostrou avesso a essas discussões pontuais, que privilegiam pontos singulares da doutrina e, por vezes, parecem dissimular mal uma certa ignorância da totalidade. Assim fazendo, passou por cima das praxes da Academia. Hoje penso que fez muito bem.
Há um aspecto sob o qual a leitura deste livro pode dar ao leitor uma impressão enganosa. Isso se deve ao fato de que, sendo uma obra bastante original na sua reconstrução articulada da filosofia quineana entendida como o sistema que ela é, nosso autor se esmerou, por assim dizer, em esconder a originalidade de sua pesquisa. Ele não se preocupou, a nenhum momento, em chamar nossa atenção para o fato de que parte do que está dizendo sobre Quine ainda não se dissera, de que está relacionando certos aspectos que ainda não tinham sido relacionados, de que está descobrindo algumas articulações e interconexões para as quais não se tinha ainda apontado e, sobretudo, de que está revelando uma ordem quineana das razões que não fôra ainda objeto de um estudo sistemático como o seu. Bulcão Nascimento desenvolve com estudada trangjilidade sua interpretação, e um leitor menos avisado pode supor que se trata tãosomente de uma exposição “correta” da doutrina do filósofo, como se tudo que o intérprete está avançando fosse apenas o que sobre Quine comumente se sabe e se conhece. Como se não se tratasse de uma interpretação bastante particular e pessoal. Se houvesse algo a criticar no estilo de exposição escolhido por nosso autor, seria a modéstia excessiva em que ele se refugia, recusando-se a deixar manifesto para o leitor o extraordinário e longo trabalho de leitura, pesquisa e reflexão que tornou possível a redação dessa obra.
Um filósofo anti-quineano ficará certamente incomodado pelo fato de o autor assumir, em seu livro, uma certa cumplicidade com o pensamento quineano, que a nenhum momento critica e, mais que isso, que parece de algum modo implicitamente justificar, ao expor as soluções propostas por Quine para muitos dos diferentes problemas com que lida. Mas essa postura de Bulcão Nascimento facilmente se compreende, quando se adverte de que ele é, em boa medida, um quineano. Nosso autor jamais pretendeu ser um historiador da filosofia, ele é filósofo. Se se permitiu desenvolver um demorado estudo sobre o pensamento de Quine, é porque constatou uma afinidade profunda entre, de um lado, suas próprias idéias filosóficas e, de outro lado, a temática nuclear de Quine e a maneira pela qual esse filósofo explicita e constrói seu pensamento. Não estou dizendo que Bulcão Nascimento adota, pura e simplesmente, a doutrina quineana; o que estou querendo dizer é que ele se fez discípulo de Quine, inclusive para, ou sobretudo para, tentar ir além das idéias do mestre. E, nas primeiras linhas do Resumo de seu livro, nosso autor confessa: ‘O objetivo geral deste trabalho é explicar e defender o realismo naturalista quineano’.
Para muitos, Quine é o crítico do empirismo clássico, o filósofo da doutrina da tradução radical (quem não ouviu falar de gavagai?), do holismo em ciência, da relatividade ontológica, da subdeterminação das teorias científicas pela experiência etc. O que Bulcão Nascimento conseguiu mostrar-nos é que todos esses pontos doutrinais se inserem articuladamente numa totalidade doutrinária singular e una que “a partir de um empirismo sem dogmas erige um realismo sem dogmas”, reorientando o empirismo tradicional. Que toda a obra de Quine é a construção laboriosa, original, rica e quase paradoxal de um novo realismo, um realismo naturalista. Essa é a tese fundamental e original do livro, seus vários capítulos a vão progressivamente construindo diante de nossos olhos, sua argumentação implacável acaba por persuadir-nos.
Este livro é uma contribuição muito importante para o estudo e a compreensão da obra de Quine, além de também constituir uma introdução filosófica ao pensamento desse autor. É um livro de filosofia que honra a produção filosófica brasileira.”
Oswaldo Porchat Pereira (Prefácio)
Volume 51 — 2008
ISSN: 0103-3147
Índice para catálogo sistemático
- Filósofos americanos 191
2. Análise (Filosofia) 146.42
References