A Gramática das Cores em Wittgenstein

Authors

João Carlos Salles Pires Da Silva

Synopsis

A gramática das cores em Wittgenstein (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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“Uma dúvida talvez possa surgir no espírito do leitor deste livro sobre Gramática das cores em Wittgenstein: qual o interesse filosófico que poderia ter o tema das cores? Parece ser um tema de interesse quase que exclusivo entre pintores ou decoradores, psicólogos da percepção ou físicos ocupados com raios e ondas luminosas. Como, então, por dentre quadros e paletas, ornamentos e frisos, olhos inquietos ao sabor de luzes radiantes e ondas sombrias, pode_ria surgir um legítimo problema filosófico a respeito de cores? E, no entanto, este livro parece tratar, ou pretender fazê-lo, de filosofia! Dúvida legítima que toma embaraçosa, senão comprometedora, a situação do filósofo quanto a de seu comentador.

Para ser satisfatória, uma resposta a essa dúvida deveria esclarecer a noção wittgensteiniana de gramática e, por consequência, a posição original que ocupa Wittgenstein na história da filosofia.

Ao falar de cores, somos introduzidos, de imediato, em um campo de tradicionais distinções filosóficas, como a distinção entre percepção e experiência. Parece haver, de fato, uma diferença radical entre percepção, seja externa ou interna, de objetos físicos ou de processos psíquicos, e experiência, externa ou interna, desses mesmos objetos e processos. É que a percepção nos oferece apenas e exclusivamente sequências empíricas ou mecânicas, ou melhor, conteúdos, por assim dizer, sem nome recortados do mundo, enquanto a experiência coloca nomes sobre esses recortes, ou seja, acrescenta-lhes sentido através de atos do pensamento que são os juízos. A mera percepção de movimentos quaisquer, p.ex., toma-se experiência de uma repetição, de uma sucessão, de um movimento orientado, etc., e, com isso, os conteúdos empíricos da percepção ganham sentido na experiência. Da mesma maneira, percebemos diferentes fragmentos da empiria, nosso aparelho perceptivo apresenta reações fisiológicas e mecânicas diversas frente aos estímulos que, na experiência, julgamos como sendo as cores. Entre a percepção e a experiência de cores, parece haver um ato de pensamento que constrói juízos: isto é uma cor, isto é verde, etc.

Chegamos, com esses poucos passos, ao abismo parmenidiano que separa o empírico do inteligível. Um dos mais tenazes esforços do drama filosófico tem sido o de refletir sobre as relações nebulosas entre as margens do abismo.

Dois personagens principais desse drama são o realismo e o idealismo, representando, respectivamente, seus papéis: o real é inteligível, mas possui existência autônoma com relação ao pensamento, e o real existe apenas na dependência do pensamento sendo, por isso mesmo, inteligível. Todavia, há um momento em que ganha a cena o sujeito transcendental, ao apresentar como que uma terceira via, na qualidade de novo personagem. Sua originalidade reside em constituir-se como sujeito exclusivamente na correlação com o objeto, assim como se impor como condição correlativa para a constituição do próprio objeto. Será a partir dessa correlação com o objeto que poderá ser explorada toda a riqueza formal e puramente a priori desse sujeito, riqueza que irá determinar, de direito, o campo de possibilidades do conhecimento e, por consequência, irá permitir que sua verdade seja justificada.

A história do novo personagem é, contudo, longa, e sinuoso o seu caminho. Tendo-se libertado do solipsismo, graças aos auspícios cartesianos de Deus, o sujeito transcendental é, agora, encerrado em uma atividade pura, independente e autônoma com relação a conteúdos, atividade gratuita. Será preciso instilar um ele_mento vital nesse sujeito, e, preservando-lhe a função transcendental, tomá-lo consciente; mais do que isso, tomar-se-á produtor dados conscientes que virão conferir sentido à percepção, fazendo-a legítima experiência. Essa é, como sabemos, a solução husserliana. Contudo, podemos imaginar ainda uma outra solução - e com ela, finalmente, abordamos a concepção de gramática dos usos das palavras, de Wittgenstein.

O sujeito sai, agora, de cena, e a função transcendental será exercida pela atividade com a linguagem, pelo trabalho de elaboração de técnicas linguísticas, envolvendo indivíduos, comunidades e conteúdos extralinguísticos, internos, externos e formais. Não mais em um registro formal e puro, tampouco atrelada a atos intencionais, essa atividade irá constituir a priori o sentido da experiência, independentemente, pois, dos conteúdos de que pode, eventualmente, partir. São reconhecidos e conservados os problemas de natureza fenomenológica, ou melhor, aqueles problemas e dificuldades presentes na constituição do sentido - problemas que precedem logicamente e condicionam o valor de verdade do conhecimento, dificuldades envolvendo os fundamentos do conhecimento. Fica excluída, todavia, uma qualquer fenomenologia, enquanto teoria filosófica cuja tarefa seria a de expor resultados positivos a respeito do que existe. A atividade filosófica adequada à nova tarefa será concebida como descrição gramatical, ou, ainda, como análise conceituai a ser realizada através descrições de aplicações de palavras, para exibir, ao olhar, usos dos conceitos, seus sentidos. Não será uma apresentação de teses positivas, mas, meramente, como diria um filósofo nostálgico, a apresentação da prática conceituai com que estamos bastante familiarizados, mas que, frequentemente, por causa mesmo de tal familiaridade, passa-nos desapercebida. Apresentação trivial e, portanto, enfadonha do que já nos é conhecido, cujo interesse reside em fazer-nos reconhecer o que sempre esteve à nossa frente e deixamos de perceber: é nessa prática construído o sentido da experiência que confere inteligibilidade à percepção - não além nem aquém.

Como, então, esclarecer problemas fenomenológicos sem construir uma fenomenologia? Problemas fenomenológicos são os que dizem respeito ao sentido pré-predicativo, ou melhor, àquelas situações em que a experiência nada pode confirmar nem falsear; são os primeiros princípios de que parte o conhecimento científico, ou, situação equivalente, os dados imediatos dos sentidos, como, p.ex., as afirmações de que o todo é maior do que suas partes, de que cada objeto é idêntico a si-próprio, de que cada triângulo é a interseção de três linhas retas, como, também, as afirmações de que o branco não é transparente e é mais claro do que o preto, de que sensações são privadas, de que p é o que satisfaz a expectativa de que p ocorra, de que o tempo flui, de que quando estamos sonhando não temos consciência de que sonhamos e, por consequência, não é pensamento o que acreditamos estar pensando, etc. Eis uma breve lista de certezas imediatas que delimitam a priori o sentido da experiência, mas que, simultaneamente, causam-nos a impressão de serem afirmações extraídas da experiência. Seriam como essências materiais que devessem estar contidas nos objetos da experiência, embora uma análise minuciosa venha a mostrar que nada encontraremos, ao aí procurá-las.

Tendo escapado do realismo escapamos, também, com Wittgenstein, do idealismo do sujeito puro kantiano, assim como do sujeito intencional husserliano, e, com isso, poderemos evitar a construção de um sistema filosófico de teses a respeito dessas certezas fundamentais que são a essência do que existe. Para tanto, basta considerá-las como os limites do sentido, ou ainda, como as convenções iniciais que todo movimento de pensamento supõe em uma situação qualquer da experiência: os primeiros princípios, os dados imediatos. O percurso para chegar a esse resultado, todavia, foi tortuoso e muito elucidativo da evolução do pensamento de Wittgenstein após o Tractatus.

De fato, a ideia de uma fenomenologia como análise conceituai, e não como sistema de teses positivas a respeito do que existe, supôs a superação de um projeto de linguagem fenomenológica, herança ainda intacta do Tractatus no final da década de 20, que deveria ser uma linguagem completamente analisada, do ponto de vista lógico, para representar com exatidão todo e qualquer conteúdo da experiência. Ao procurar aplicar a lógica transcendental, tal como prescrita em seu livro de juventude, Wittgenstein encontra as primeiras dificuldades para construir uma linguagem que pudesse adequar-se a essa prescrição nas situações da experiência que comportam gradações, tais como os fenômenos espaciais, temporais, coloridos e sonoros. Nesses casos, as proposições elementares não mais poderiam conservar a independência lógica recíproca prescrita pela lógica transcendental. Mas, além disso, surgia outra dificuldade: uma linguagem completamente analisada não poderia ser hipotética, uma vez que deveria ser isomorfa ao que viesse a representar, ou melhor, deveria ser uma representação logicamente exata do representado. Ora, ainda que admitindo a perda de independência entre as proposições elementares, Wittgenstein procura remediar a situação introduzindo números nas expressões elementares dessa linguagem para dar conta dos diferentes e diversos graus daquele tipo de fenômeno. É nesse momento, entre 29 e 30, que Wittgenstein defronta-se com a questão de representar, não somente os graus dos fenômenos, como, principalmente, suas transições. Surge, aqui, uma dificuldade intransponível para a linguagem fenomenológica, ou completamente analisada: se ainda era possível admitir que números pudessem representar exatamente cada um dos graus dos fenômenos, através de regras de associação, deixa de ser possível aplicar números para representar transições imprecisas entre os próprios graus. E a razão é bastante simples: não há um critério definitivo para a medida da exatidão. Assim, a representação exata, ou logicamente isomorfa, de situações imprecisas como as transições, em geral, jamais poderá ser realizada por uma única linguagem, uma vez que a medida da exatidão dependerá de critérios a serem determinados para cada caso. O próprio conceito de exatidão lógica deixa de ser definitivamente exato, passando a comportar margens de imprecisão a serem preenchidas por diferentes critérios a cada caso. Daí a falência do projeto de uma linguagem fenomenológica pois, não podendo ser isomorfa a priori ao representado, toda e qualquer linguagem será sempre hipotética, ou melhor, nunca terá a mesma multiplicidade lógica do representado.

Com isso, é modificada a própria concepção exclusivista da Matemática, presente no Tractatus, como exploração efetiva do espaço lógico por fixar cada aplicação de uma operação lógica efetuada sobre uma base qualquer, através dos números. Ainda que não diretamente voltada para o mundo, enquanto mero método da Lógica, a Matemática não deixava de voltar-se virtualmente para ele, ao percorrer aquele espaço. Ora, se a presença de números em proposições elementares, como constata Wittgenstein em 29, não assegura a representação isomorfa de situações imprecisas de transição é porque sua função é a de lançar hipóteses a respeito do mundo - da mesma maneira que as proposições da física o fazem -, i.e., hipóteses a respeito dos. critérios de exatidão a que estariam associados cada um dos números. A Matemática parece ter, aqui, uma relação mais estreita com o mundo do que poderia admitir o Tractatus. Desfeito o projeto de uma linguagem fenomenológica, restam, todavia, os mesmos e legítimos problemas fenomenológicos, a saber, os problemas que dizem respeito à expressão linguística do simples, do pré-predicativo. O novo desafio é, pois, para Wittgenstein, a partir da década de 30, como expressar o simples com os meios de uma linguagem hipotética, aliás, do único tipo de linguagem que podemos construir. Confluem, nesse ponto, duas dificuldades: a natureza do que é simples e sua expressão linguística. É o conceito de uso que permitirá esclarecê-las.

De fato, a função hipotética da linguagem corresponde a um uso possível que fazemos das proposições, a saber, quando aplicamos proposições para descrever situações e objetos. As proposições matemáticas podem ser usadas dessa maneira, assim como as da linguagem natural. Todavia, há outro uso que também fazemos das proposições, não mais descritivo, mas, normativo ou criterial; são as mesmas linguagens e proposições usadas de modos diferentes. São igualmente verdadeiras as proposições: "2+2=4", "todo objeto é idêntico a si-próprio", "o todo é maior do que suas partes", "o branco é mais claro do que o preto", "a palavra 'mesa' possui quatro letras", "minhas sensações são privadas", etc., assim como são igualmente falsas as respectivas negações; não há, aqui, diferentes graus de verdade e de falsidade nem, tampouco, lugar para experimentos onde pudesse decidir qualquer verificação. Verdade e falsidade são, nesses casos, a priori. É assim que usamos essas proposições, como critérios ou normas de sentido, e não como descrições hipotéticas. O esclarecimento para o aparente enigma da expressão anhipotética do simples é, poderíamos dizer, bastante simples: ao usarmos criterialmente as proposições de nossas linguagens hipotéticas, não estamos levantando hipóteses, mas colocando convenções normativas para o sentido; nada descrevemos, apenas estabelecemos os limites para o sentido do que iremos, a seguir, descrever, ou, ainda, colocamos as convenções iniciais para orientar e dar sentido às descrições. Sem essas convenções não há o que descrever nem, tampouco, como descrever. Evocando o Tractatus, diríamos que tanto o como quanto o que tomam-se agora, funções dos usos que fazemos das proposições de nossa linguagem.

De fato, com proposições matemáticas podemos descrever, ao associarmos números e critérios demarcadores do limite daquilo que pretendemos descrever; nesse caso, as proposições são hipóteses a respeito do descrito, ou melhor, hipóteses sobre como é o que está sendo descrito. Meras hipóteses, uma vez que não existem critérios definitivos de exatidão que pudessem fundamentar uma linguagem expressiva completamente analisada e logicamente isomorfa ao fato representado. O conceito de número deixa, assim, de ser concebido exclusivamente como expoente de uma operação, à maneira do Tractatus, tomando-se um conceito que também comporta margens imprecisas dependentemente dos critérios que passam a presidir o seu uso e o das proposições em que for inserido. Esse não é, entretanto, o único uso para proposições matemáticas; pelo contrário, ao afirmar que "2+2=4" nada estamos descrevendo e a proposição não é hipotética: estamos apenas colocando a norma para o que é ser uma soma correta, o sentido paradigmático de soma. Nesse caso, o uso normativo, ou criterial, das proposições indica que sua função é a de dar sentido a outras proposições, como dissemos, as proposições descritivas da experiência. É, pois, o uso da linguagem que irá determinar a relação da própria linguagem com o mundo por ela descrito, inclusive sua relação com o simples pré-predicativo. Particularmente, é o uso criterial que preserva, ainda que apenas parcialmente, a ideia tractariana de que a Matemática explora o espaço lógico mantendo, assim, uma relação apenas virtual com o mundo. A metáfora do espaço lógico é, com efeito, substituída pela metáfora da forma de vida e, com isso, a Matemática deixa de ser um método da Lógica aproximando-se da fenomenologia: passa a ser concebida como uma das formas de exploração das possibilidades de sentido das quais se vale a física, em suas proposições descritivas. Uma exploração fenomenológica sem, contudo, uma linguagem especial para isso - linguagem fenomenológica ou primária - nem, tampouco, a pretensão de construir teses positivas a respeito do que existe - uma fenomenologia como sistema filosófico.

Será uma exploração dos legítimos problemas fenomenológicos, os quais, aliás, não são exclusivos do campo da Matemática, mas também estão presentes no campo da Psicologia - i.e., os estados mentais e a percepção -, da Filosofia -i.e., os debates filosóficos entre realismo e idealismo, behaviorismo e mentalismo, etc. -, e da própria linguagem - i.e., a significação, as regras sintáticas de formação e de projeção, a relação de representação linguística, etc. Não há campos privilegiados para os legítimos problemas fenomenológicos, assim como não há uma linguagem privilegiada para sua expressão. Haverá problemas fenomenológicos sempre que houver situações de transição, ou melhor, ligações por semelhança irredutíveis a critérios precisos de identidade, ligações que Wittgenstein irá qualificar de internas, por oposição a ligações externas, causais ou mecânicas, e também a ligações lógicas de determinação completa. Ora, como salientamos, Wittgenstein se dá conta, já no final da década de 20, que os próprios critérios de exatidão não são definitivos e, consequentemente, também não o são os critérios para o que será considerado uma ligação externa ou causai. Em outros termos, haverá problemas fenomenológicos sempre que pensarmos sobre os limites do sentido da experiência, procurando, com isso, demarcar o externo e o interno, o significativo, o desprovido de sentido e o absurdo, enfim, as relações entre linguagem e mundo.

A grande originalidade de Wittgenstein, quanto a esse ponto, consiste em mostrar minuciosamente, através da descrição gramatical, que a essência é de natureza linguística e convencional, não cabendo qualquer incursão nos domínios extralinguísticos da experiência - empírico, mental ou formal - o que só nos conduziria a novas e mais confusas confusões filosóficas. Dessa maneira, abre-se novo e rico campo para a reflexão: a descrição gramatical dos usos das palavras terá por finalidade realizar a terapia do pensamento filosófico em cada um dos campos em que exerce sua reflexão. Não haverá campo privilegiado para essa reflexão, uma vez que ela cobre qualquer região da experiência que já é sempre significativa. Qualquer experiência contida em formas de vida, em instituições sociais regradas por meio da linguagem, será um campo adequado e legítimo para a reflexão filosófica terapêutica, pois é aí que nascem as confusões conceituais. Além disso, as for_mas de vida transformam-se, evoluem ou, mesmo, perecem; com elas, também, as próprias formas da experiência, i.e., aquilo sobre cujo sentido o filósofo reflete.

Todavia, o conceito de gramática não teria qualquer originalidade se a descrição filosófica, proposta por Wittgenstein, viesse a tematizar convenções sociais, pois não mais se distinguiria de uma descrição sociológica ou antropológica, ou, como diz o próprio filósofo, de uma "história natural". Ora, as ligações gramaticais, que pretende descrever, não são externas, mas internas. De fato, embora sendo, a essência, de natureza convencional, não são convenções a sua causa, uma vez que não agimos guiados por regras mas, sim, em conformidade a regras, ou melhor, podemos modificar, substituir, eliminar e criar novos critérios para nossa ação enquanto agimos no interior de formas de vida. Convenções sociais são instituições que podem ser empiricamente descritas, não sendo essa, entretanto, a tarefa da descrição filosófica. Ao descrever os usos das palavras, Wittgenstein pretende captar as regras a que se conforma cada aplicação dos conceitos, i.e., as regras que cada aplicação exprime independentemente de convenções sociais prévias. Cada aplicação contém a essência do conceito/ pois, caso contrário, não saberíamos aplicá-lo. A relação é interna entre aplicação e essência, e não externa como entre aplicação e convenção. É esse o espaço gramatical, substituto do espaço lógico do Tractatus, ligado a formas de vida mas independente das convenções por elas geradas. O acordo gramatical entre os homens exprime-se naquilo que dizem, em cada aplicação que fazem dos conceitos, ou melhor, em seu acordo a respeito de formas de vida. É um acordo diferente daquele que envolve opiniões, manifestação empírica de uma instituição social localizada no espaço e no tempo, e geradora de convenções. Não são essas convenções a causa do que os homens dizem; pelo contrário, o que dizem pode gerar convenções. É interna a ligação entre cada aplicação conceituai e a essência, pois, ambas, imersas em formas de vida, e, ao mesmo tempo, de natureza convencional, porque linguística. As aplicações dos conceitos exprimem a essência das formas de vida - não além nem aquém da linguagem, ela própria uma forma de vida.

O conjunto dos escritos de Wittgenstein, contido em seu Nachla, revela os campos em que problemas fenomenológicos foram por ele explorados, alguns mais exaustivamente do que outros, alguns apenas esboçados. É assim que surge o tema das cores, ligado internamente ao campo da percepção e dos dados imediatos. As cores são, na verdade, um antigo tema, para Wittgenstein, já presente no Tractatus, que irá frutificar ao ser inserido, a partir do final da década de 20, no novo contexto progressivamente pragmático de sua reflexão. As dificuldades apresentadas pelos sistemas que comportam gradações, como o das cores, serão retomados e reelaborados no contexto da percepção: como descrever as transições, situações em que sequer a identificação precisa de elementos simples é possível para a percepção? Seria possível descrever exatamente o que não é exato ou, simplesmente, descreve inexatamente o inexato? São, como salientamos, as dificuldades para construir uma linguagem anhipotética e, ao mesmo tempo, para exprimir linguisticamente o simples pré-predicativo, ou melhor, a essência presente em cada caso de aplicação dos conceitos. O tema das cores é um dos que mais causa confusões entre os filósofos, segundo Wittgenstein, uma vez que as cores estão gramaticalmente ligadas à percepção. De fato, pensamos a respeito das cores a partir de proposições criteriais, sem nos darmos conta do uso criterial que delas fazemos e, mesmo, pelo contrário, atribuindo-lhes a função descritiva, como p.ex.: "os cegos não podem ter acesso aos conceitos de cor", não podendo, portanto, falar significativamente sobre cores - da maneira, pelo menos, como o fazem os que podem ver cores. Por outro lado, parece haver uma ligação imediata entre percepção e cores, sem qualquer intermediação predicativa, pois basta conhecermos o nome da cor para que sua imagem mental possa ser reconhecida e imediatamente evocada. Eis alguns exemplos de confusões filosóficas, segundo Wittgenstein, que nos levam a considerar as cores como um caso exemplar de experiência imediata do simples, e vinculá-la, ao mesmo tempo, à percepção externa e interna.

Esse é o interesse filosófico que envolve as cores. Por isso, ter-se Wittgenstein dedicado ao tema desde a juventude até os últimos escritos. Esse é, também, o tema deste livro - cujo título muito bem poderia ser: Sentido e experiência através das cores. Trata-se de uma análise minuciosa e completa do tema das cores em Wittgenstein, aliás, a mais completa e minuciosa até agora publicada, que acompanha os principais passos da evolução do pensamento do filósofo a esse respeito, retraçando, com isso, a evolução de tantos outros conceitos ligados à concepção de linguagem e de filosofia. Este livro analisa um campo particular e circunscrito da reflexão do filósofo sobre o sentido da experiência, aquele que nos permite organizar a priori a experiência extralinguística segundo a forma das cores. Mas, ao mesmo tempo, é uma porta privilegiada de acesso à concepção mais geral de gramática que elabora Wittgenstein até o final de sua vida. De fato, o que for dito sobre cores, será dito sobre a essência, sobre os fundamentos ou os limites do sentido. Eis a sugestão legada pelo filósofo, que o autor deste livro soube muito bem compreender e acatar.

 

JOÃO CARLOS SALLES PIRES DA SILVA

 

Volume 35 – 2002

 

ISSN: 0103-3147

Primeira Edição, 2002

 

Índice para catálogo sistemático

Filosofia austríaca 193

 

OBS. O objeto deste livro é a gramática das cores na obra de Ludwig Wittgenstein (1889- 1951). Dirige-se, portanto, às relações internas entre cores e não às relações externas entre pigmentos, raios luminosos, processos retinianos que interessariam precipuamente a físicos, fisiólogos ou psicólogos. Assim, enquanto estudo sobre uma investigação filosófico-gramatical, sua atenção se volta para o uso normativo de palavras descritivas da experiência.

References

Coleção CLE - Volume 35

Published

January 20, 2023

How to Cite

SALLES PIRES DA SILVA, J. C. A Gramática das Cores em Wittgenstein. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP), 2023.