Incursões Semióticas
Synopsis
Incursões Semióticas (digital)
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Resumo
“Lauro Frederico Barbosa da Silveira dedicou praticamente toda sua vida de estudioso de filosofia à investigação da imensa obra de Charles Sanders Peirce, tornando-se um dos maiores especialistas brasileiros no pensamento do autor. Não obstante possa bastar essa razão para tornar obrigatória sua leitura, outra peculiaridade deste livro recomenda dize-lo indispensável, a saber, sua refinada qualidade filosófica que logo será percebida pelo leitor — ela se evidencia na forma profunda com que a diversidade de temas e abordagens se desenha no texto — fruto genuíno da erudição do autor na história das ideias e, em especial, na obra de Peirce.
Organizada na forma de ensaios que apresentam uma autonomia de reflexão temática, a obra proporciona experienciar não apenas essa autonomia, lendo-se ensaio a ensaio, mas também perceber o nexo entre eles. A razão desse nexo, penso, está não apenas na exímia e consistente condução conceituai imposta pela sua escritura, mas, também, em uma característica da própria filosofia legada por Peirce. A imensa obra do autor norte-americano, malgrado preponderantemente constituída por manuscritos não publicados, constitui no seu estágio maduro um sistema de ideias que se entrelaçam logicamente. Cada uma delas é sugestiva de outras e solicita heuristicamente a complementação por outras — esse entretecimento de teorias Peirce incessantemente buscou formular ao longo de sua trajetória intelectual.
Um sistema tematicamente rico proporciona sempre muitas questões — talvez seja mais justo dizer — acolhe muitas questões — ao contrário de filosofias estreitas que, por não terem como fazê-lo em face de seu raquitismo teórico, em muitos casos mascaram sua forçada omissão descredenciando-as como de cunho não filosófico.
A análise da obra peirciana exige uma atitude heurística e dialogante com o autor. Peirce não publicou em vida um livro sequer. Assim, penetrar seu texto, primordialmente manuscrito e sem a oportunidade de uma revisão pelo autor que uma edição efetiva teria necessariamente proporcionado, com o intuito exclusivo de uma análise de conceitos e sua consistência lógico-dedutiva é, pode-se no mínimo dizer, uma abordagem inócua, para não se dizer injusta. Toco nesse ponto para me contrapor a uma prática corrente de alguns estudiosos de Peirce que, reduzindo a filosofia à mera análise da linguagem e se valendo de algum formalismo pretensamente forjante de precisão, vangloriam-se de encontrar contradições que fraturariam a obra peirciana em partes desconexas, buscando com isso invalidar a noção de que tenha ele formulado um sistema de filosofia. Em face da natureza dos originais que ele nos legou, tal postura poderia ser comparada à insólita expectativa de que um bebê devesse nascer dominando com perfeição alguma linguagem e elegantemente bem vestido, sem quaisquer traços dos fluidos uterinos que assimetricamente pudessem lhe aderir ao corpo.
Sabe-se que mesmo obras clássicas, duas vezes editadas e revistas pelo próprio autor, como a primeira crítica de Kant, não estão isentas de possíveis contradições, razão pela qual buscar arestas lógicas possivelmente descaracterizastes do caráter sistêmico da obra de Peirce por meio de possíveis contradições, não infrequentemente apenas incidente em má interpretação do texto original, parece ser um despropósito de fundo, mencionando, uma vez mais, a natureza da escritura legada por Peirce. De fato, a leitura da obra de Peirce até agora publicada evidencia um pensamento em progresso como se costuma dizer nas lides acadêmicas — muitas vezes, creio, um pensamento que se pensa escrevendo, conjecturante. na sua essência, em permanente formação heurística. E preciso lê-lo assim, construindo conceitos com ele, pensando com ele, numa atitude de espírito generosamente acolhedora de um dos pensamentos mais criativos da história da filosofia.
Lauro Silveira passou, permitam-me testemunhar, seus anos intelectualmente mais criativos junto a Peirce — como o mais profundo da teoria da continuidade de Peirce requereria, a saber, num continuum de pensamento e sentimento substancializado em uma convivência viva e presentificada com o filósofo norte-americano. Apenas isso já o credenciaria como estudioso e agudo conhecedor de sua obra. Todavia, como muitos que se deixaram contaminar pelo caráter heurístico e conjecturante do pensamento de Peirce, Lauro aprendeu a pensar sua filosofia como ela de fato requer de todos aqueles que com ela se envolvem com profundidade: despedindo-se de modo indolor não apenas de dogmatismos, mas de toda e qualquer mitológica exigência de certeza que, ingloriamente e durante tanto tempo, tomou a mente de muitos pensadores, poder-se-ia dizer brilhantes, na história da filosofia.
O diálogo de Lauro com o pensamento de Peirce desvela-se facilmente na leitura deste livro, não apenas em nome de um rigor teórico que demanda remeter o texto sempre a citações do original analisado, mas por se aprender com a filosofia peirciana que todo pensamento é dialógico em sua natureza. Veja-se, explicitamente nesse sentido, como o belíssimo ensaio 0 admirável Amazonas, metáfora do pensamento discorre sobre o tema.
A ampla visão que Lauro tem da Semiótica, conquanto evidente em todos os ensaios, aparece especialmente em 0 espirito das águas^ na forma de uma ciência que se vale da possibilidade de extensão dos verbos pensar, criar, interpretar do âmbito humano ao natural.
Mas o que legitima dizer que o rio pensa, cria, interpreta, sem que isso possa soar como uma espécie de promiscuidade2 entre predicados tipicamente humanos e processos naturais? Simplesmente a análise da conduta, a saber, o exame dos signos que o rio evidencia conduz inferencialmente a formas gerais que afetam seu modo de ação. A pressuposição de que o vocabulário da Semiótica possa ser indiscriminadamente utilizado tanto nos fenômenos humanos quanto nos naturais se harmoniza com uma concepção de realidade que está no âmago do pensamento peirciano.
De fato, a filosofia de Peirce propõe uma simetria formal entre os modos de ser do homem e da Natureza, consolidando suas três categorias, primariedade, segundidade e terceiridade, como válidas indiferentemente nos planos do signo e do objeto. A exfensionalidade da Semiótica da esfera da linguagem para os fenômenos naturais permite entender toda e qualquer investigação, todo processo de aquisição de conhecimento, como dialógico, de tal modo que os significados circulam entre os signos e seus objetos, em trajetória cognitiva que jamais pode finalizar no particular, mas que também não coloca este em relação de estranhamento com qualquer instância geral. A simetria categorial da filosofia de Peirce proporciona conceber o particular como forma exterior de aparecer, desenhando, assim, o modo pelo qual o mundo interior pode tornar-se cognoscível para qualquer mente semiótica. Nesse sentido, então, o universo é uma vasta mente semiótica e isso ficará mais que evidente durante o percurso que o leitor fará ao longo dos ensaios deste livro.
Toda a análise de fenômenos, na medida em que é análise de conduta, leva, em última análise, a um significado pragmático, ou seja, à significação lastreada em consequências práticas. Ora, aqui também cabe estender o conceito de pragmatismo para além dos limites estreitos de análise da significação de conceitos. Há, conforme irá mostrar com abundância a presente obra, leitura de significados reais: a afecção das condutas naturais leva ao reconhecimento de seu sentido pragmático.
Depreende-se que aprender com a experiência é interagir semioticamente com ela — tal interação se dá por um processo dialógico em que os signos circulam carreando sentido por influenciarem pragmaticamente a conduta, tornando tudo que desse processo participar digno de partilhar o Ser daquilo que possa ser considerado Mente. É curioso como certos scholars tornam-se insones com essa amplificação do conceito de mente, mas ela é tão somente um conceito pragmático — a análise dos fenômenos permite neles reconhecer conduta intencionada para determinados fins. Não é outra coisa o que denominamos, em geral, de ação inteligente. Não obstante esse quesito possa ser necessário para caracterizar o que seja mente, ele não é suficiente. Em todo fenômeno em que se identificam diversidade, variedade, assimetria, há a manifestação de um princípio de espontaneidade, outro predicado do que se concebe como mente. Em suma, poder-se-ia dizer que mente se caracteriza pela ubiquidade das três categorias, em que Acaso, Existência e Lei configuram a estrutura eidética do real. O Idealismo Objetivo é simplesmente o nome que Peirce deu à conclusão de que mente é um substrato contínuo de uma Natureza da qual participamos. Essa doutrina não é mais que uma condição de possibilidade que franqueia o fluxo contínuo dos signos e significações sem as fronteiras do estranhamento entre mente e matéria.
O leitor está diante de uma obra profunda, onde praticamente todas as ideias de Peirce são objeto de reflexão por parte do autor. Ele percorre o sistema peirciano com a autoridade de quem realmente conhece os textos originais. Esse percurso pode ser visualizado já no índice deste livro, aonde os temas se desenham, de modo geral, da epistemologia à ontologia, passando por aspectos da filosofia da linguagem, do marxismo e do urbanismo, destacando-se a declaração de amor que, por meio de uma análise semiótica, Lauro faz ao Rio Amazonas.
Não é outro também o sentido mais fundo deste livro. Oferecer esse conjunto de ensaios ao leitor é partilhar com ele uma inteira vida de reflexão e estudos. Somente isso faculta entender essa publicação como uma legítima declaração de amor de Lauro Silveira, dando continuidade natural à sua sempre amorosa atuação como professor.”
Lauro Frederico Barbosa da Silveira
VOLUME 65 – 2014
ISSN: 0103-3247
Índice para catálogo sistemático
- Semiótica 149.94
OBS. Pensamento é diálogo que permeia toda a realidade. Sob este ponto de vista Charles Sanders Peirce (1839-1914) elaborou toda sua obra, tanto como cientista quanto como filósofo. Incursões Semióticas pretende responder ao convite peirciano de manter-se em diálogo tanto com diversos domínios de atuação dos homens em sociedade. Em todos estes domínios uma experiência do pensar foi se consolidando e, embora sinceramente falível em suas hipóteses, convida os leitores a com ela dialogar. Crescer em pensamento é, sob o olhar de Peirce, a pequena, mas maior contribuição que podemos trazer para a contínua evolução de todo o Cosmos.
References