Michel Debrun: Brazilian National Identity and Self-organization
Synopsis
Michel Debrun: Brazilian National Identity and Self-Organization (digital)
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Resumo
“O que é ser brasileiro? Será mesmo que faz sentido falar desse "ser"? Com estas perguntas Michel Maurice Debrun, filósofo francês radicado no Brasil desde 1956, inicia a sua obra, que deixou inacabada, sobre a Identidade Nacional Brasileira. Conhecedor de aspectos geográficos, jurídicos e diplomáticos do Brasil, ele ressalta que tais aspectos não suscitariam grandes dúvidas sobre uma resposta afirmativa a essas duas questões. Contudo, sua preocupação é outra: na condição de filósofo criador de uma Teoria da Auto-Organização e das concepções sistêmicas da informação, ele está interessado em compreender a dinâmica informacional, auto organizadora da ação educadora da qual emergem "várias identidades brasileiras". Para tanto, durante quase vinte anos debruçou-se sobre fontes reveladoras da história e das muitas faces da realidade contemporânea brasileira, tendo como pano de fim do as ideias de Gramsci sobre a relação entre infraestrutura e superestrutura sociais. O estudo cuidadoso da concepção Gramsciana de filosofia, em especial do seu papel informador e estruturador constituinte das várias instâncias da superestrutura do mundo social, resultou em sua tese de livre docência, intitulada Gramsci: Filosofia, política e Bom Senso, que foi publicada em 2001, após seu falecimento, como o volume 31 da COLEÇÃO CLE, em coedição com a Editora da Unicamp. Trata-se de uma das versões sobre o tema que Michel Debrun elaborou e reelaborou por duas décadas, sem nunca se decidir sobre o ponto certo de sua publicação.
No debate contemporâneo brasileiro sobre a polêmica distinção entre Filosofia Temática e/ou História da Filosofia, Debrun tomou partido de modo firme, profundo e elegante pela primeira. Sem menosprezar a rica herança da história da filosofia (que seus colegas franceses deixaram em sua passagem pelo Brasil, especialmente na Universidade de São Paulo - USP), ele ensinou aos seus alunos a arte de refletir filosoficamente sobre temas relevantes do meio que nos circunda. Como ressalta Paulo Sérgio Pinheiro em seu brilhante prefácio à obra Gramsci: Filosofia, política e Bom Senso: "Michel Debrun fez filosofia crítica e de modo concreto desceu à arena do debate político... Poucos dos seus colegas realizaram como ele o caráter intrinsecamente prático da filosofia". Lembra-nos também da fusão do pensamento de Gramsci e Debrun no que diz respeito ao papel ativo do filósofo: "O verdadeiro filósofo é — e não pode deixar de ser — nada mais do que o político, isto é, o homem que modifica o ambiente, entendido por ambiente o conjunto das relações de que o indivíduo faz parte".
No contexto de uma filosofia prática, Debrun adota Gramsci como um pretexto para refletir sobre a identidade nacional brasileira. Concomitantemente à elaboração do seu trabalho sobre Gramsci, ele fundou, em 1986, no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, um grupo interdisciplinar de estudos sobre Auto-organização e Informação, coordenando-o de forma exemplar até sua morte em 1997. Para os membros desse grupo de pesquisa interdisciplinar, conhecido como Grupo Interdisciplinar CLE Auto-Organização, que tiveram a sorte de compartilhar com ele um processo tão raro de reflexão genuinamente filosófica no Brasil, iniciou-se um caminho cujas marcas refletem o percurso do filósofo original e sutil, do professor francês bem humorado.
Michel Debrun passou os seus dias estudando a complexa dinâmica organizadora, deixando uma contribuição inestimável sobre a natureza da nossa identidade nacional. Esse caminho, como talvez ele não pudesse prever, tem sido cultivado pelos membros do Grupo CLE, atualmente sob a direção de ítala M. Loffredo D'Ottaviano (coorganizadora desta coletânea), que assumiu a coordenação do grupo desde 1997 e tem se empenhado na editoração dos manuscritos deixados por Debrun. E justamente com o propósito de divulgar alguns de tais manuscritos que a presente coletânea se constitui e de alguma forma se "auto-organiza". Através dela apresentamos, inicialmente, uma versão do estudo da identidade brasileira escrito por Debrun, e publicado no Jornal da Unicamp em 17/05/2004, no qual ele delineia sua visão da identidade nacional, indicando alguns de seus traços mais marcantes, em busca de um consenso em torno de certos valores.
Como um estudioso das teorias de auto-organização, que focalizam a dinâmica geradora de parâmetros de organização e de controle a partir da interação entre componentes de um sistema, ele ressalta a existência de um consenso ou de uma comunhão, na esfera cultural brasileira, em torno, por exemplo, do carnaval, do futebol e da música popular. Debrun questiona a possibilidade de que, com esse "consenso", "o Brasil se transforme numa festa, num imenso auto espetáculo". Uma vez que os parâmetros de controle delimitam o espaço de possibilidades, em um movimento de feedback circular, os componentes a partir das quais eles emergem, Debrun analisa a possível intenção de se fazer desse consenso um instrumento de integração sócio-política: "pois cada coro devia se tornar um microcosmo de Brasil novo, e exemplificar a unidade do país e o disciplinamento das paixões; pretendia-se, a partir de um musical nacional-popular, eventualmente autêntico, suscitar ou reforçar uma comunidade política ilusória". Ele ressalta que em Roberto da Matta encontra-se uma ideia parecida: com o carnaval presenciamos o advento de uma "comunidade" efêmera, mas real e original, que permite aguentar ou compensar até certo ponto as agruras da "sociedade", caracterizada, esta última, por separações, antagonismo e hierarquias.
Após a introdução das ideias de Debrun sobre o tema da identidade nacional Brasileira, apresentamos no restante da presente obra os três últimos artigos publicados por ele, nos livros Auto-organização: estudos interdisciplinares (Coleção CLE, Unicamp, volume 18, 1996) e Encontro com as Ciências Cognitivas (Editora Cultura Acadêmica, Unesp, 1997). Nesses capítulos ele analisa os conceitos básicos de sua teoria da auto organização, indicando aplicações dos mesmos no estudo de eventos físicos, sociais e cognitivos.
Solange e Daniele Debrun doaram ao Centro de Lógica os manuscritos deixados por Debrun e o seu acervo bibliográfico, que fazem parte dos Arquivos Históricos do CLE e da Biblioteca do CLE, que desde 1998 chama-se Biblioteca Michel Debrun, numa justa homenagem ao mestre e amigo exemplar, que tanto se dedicou à Unicamp e à universidade brasileira.
Entre os manuscritos deixados por Debrun, estão suas preciosas anotações relativas a seus quatro livros inacabados: sobre a identidade nacional brasileira, sobre Gramsci (já mencionado), sobre neoliberalismo e globalização, e o livro que seria intitulado Da auto-organização à criação. Estudantes que fazem parte do Grupo Interdisciplinar CLE Auto-Organização estão trabalhando com esse material para publicação próxima.
Decidimos editar este volume da COLEÇÃO CLE, com a publicação conjunta bilíngue dos três últimos artigos publicados por Debrun, nos livros Auto-organização: estudos interdisciplinares (Coleção CLE, Unicamp, volume 18, 1996) e Encontro com as Ciências Cognitivas (Editora Cultura Acadêmica, Unesp, 1997); e de sua última entrevista, concedida ao Jornal Correio Popular no final de 1996, sobre neoliberalismo e globalização econômica e cultural, relacionando tais conceitos a suas pesquisas sobre auto-organização.
Esta publicação constitui uma homenagem a Michel Debrun, insubstituível e querido amigo. Nesta homenagem, queremos expressar nossa gratidão pela herança filosófica que nos legou Michel Debrun, dando-nos o exemplo de que ainda é possível refletir filosoficamente, também no Brasil e na América Latina em geral, para além dos muros da história da filosofia.”
Ítala M. Loffredo D'ottaviano
Maria Eunice Q. Gonzalez (orgs.)
Volume 53 – 2009
ISSN: 0103-3147
índice para catálogo sistemático
- Filosofia brasileira 199.81
- Sistemas auto-organizadores 003.7
OBS. In this work, Michel Debrun outlines a vision of the Brazilian national identity, indicating some of its most striking features, in the search for a consensus about certain values. Following, we presente his last three papers, pulished in the books Autor-organização: Estudos Interdisciplinares (Coleção CLE, v. 18, 1996) and Encontro com as Ciências Cognitivas (Editora Cultur Acadêmica, 1997). In tese three chapter, he analyses fundamental concepts of his theory of selforganization, indicating applications of these concepts in studies of physical, cognitive and social phenomena.
References