Espaço e Tempo
Synopsis
Espaço e Tempo (digital)
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“Este livro é composto por artigos que foram originalmente produzidos para o VIII Colóquio de História da Ciência, dedicado ao tema “Espaço e tempo”, realizado pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, CLE/UNICAMP, de 14 a 17 de outubro de 1993, em Águas de Lindóia.
Organizados desde 1985, pelo Centro de Lógica - UNICAMP, os Colóquios CLE de História da Ciência têm por objetivo estimular a produção, divulgação e discussão de trabalhos de alto nível acadêmico sobre história da ciência.
Tradicionalmente, nossos Colóquios de História da Ciência são temáticos, propiciando a discussão aprofundada dentro de um único tema geral com o qual todos os participantes estão familiarizados.
O VIII Colóquio — ao contrário dos realizados nos anos anteriores, cujos temas se restringiam a um período limitado da história da ciência, ora dedicando-se à análise de alguns autores em particular (Newton, Descartes), ora a períodos propriamente ditos (Ciência Moderna, Ciência Grega, Ciência no Século das Luzes, Ciência Medieval e Ciência no Século XIX) — teve como tema geral a evolução dos conceitos de Espaço e Tempo e suas correspondentes teorias na história da ciência e da filosofia.
Esta alteração, embora guardando ainda o espírito inicial de tematizar os Colóquios, deve-se ao fato de que praticamente todos os grandes períodos históricos já tinham sido analisados. Optamos então pela discussão de um tema ao longo da história da ciência e da filosofia.
Pareceu-nos bastante pertinente a opção por este tema, já que as noções de espaço e tempo são centrais tanto na ciência quanto na filosofia, o que possibilita, sem dúvida, um tratamento do ponto de vista histórico extremamente interessante.
Embora não pretendemos, neste Colóquio, nos prender a uma estrita ordem cronológica de discussão do desenvolvimento dos conceitos de espaço e tempo, tentamos, na medida do possível, cobrir todos os períodos históricos, analisando as diversas alterações conceituais relativas a espaço e tempo na história da ciência e da filosofia. No entanto, a estrutura do Colóquio priorizou um tratamento tópico, que procuramos reproduzir neste volume.
A primeira parte deste livro será dedicada ao espaço e tempo na história da ciência e da filosofia. A segunda parte versará sobre o tempo na lógica e na filosofia analítica. Recentes análises científicas e filosóficas do espaço e tempo serão objeto da terceira e última parte.
A primeira parte inicia com o artigo de Gilles-Gaston Granger, onde o autor discute se uma teoria pura do tempo devia ser comparável às geometrias, teorias puras do espaço. Segundo Granger, embora Kant tenha apresentado a aritmética como fazendo o papel de “ciência pura do tempo”, a própria Crítica da Razão Pura nos dá elementos para fundamentar a impossibilidade de uma teoria verdadeiramente pura do tempo. Assim, Granger examina se as lógicas temporais poderiam ser consideradas ciências puras do tempo, e mostra, a partir de exemplos, que nas ciências da empirie toda teoria do tempo está necessariamente ligada aos conteúdos dos objetos.
Michel Paty, no Capítulo 2, argumenta que o espaço-tempo da teoria da relatividade é uma construção conceitual formulada para dar conta de uma certa ordem de fenômenos físicos. Com a teoria da relatividade restrita, o tempo é colocado na dependência das leis gerais dos fenômenos estudados pela mecânica e pelo eletromagnetismo: é constituído como grandeza física de modo que sejam respeitados o princípio da relatividade da mecânica e a constância da velocidade da luz independentemente do movimento da fonte luminosa, lei fundamental do eletromagnetismo. O espaço_tempo assim construído ligaria de maneira indissociável as coordenadas espaciais e o tempo, sob o signo de uma causalidade que exclui as ações instantâneas; permanece sendo, porém, o cenário [cadre] inalterável dos objetos e dos fenômenos físicos, que sobre ele não influem. Quanto à teoria da relatividade geral, modifica a significação física do espaço e do tempo, transformando-os em simples coordenadas em uma variedade deformável, o espaço_tempo, cuja estrutura não mais é dada pelas distâncias euclidianas dos corpos rígidos e pelos relógios invariáveis, mas pela forma do campo de gravitação. A partir dessa nova construção, o espaço_tempo não é mais concebido como um cenário independente dos fenômenos e que os condiciona, passando a ser, ao contrário, de_terminado por eles. A cosmologia moderna destaca esse ponto, mostrando como o tempo (e, com ele, o espaço-tempo) tem o seu: significado físico determinado em cada etapa da evolução do Uni_verso pelas leis que regem o estado da matéria nas condições da época.
Em “A existência do espaço-tempo segundo Leonhard Euler” Michel Ghins, mostra que Euler parte da verdade do primeiro Axioma de Newton (a Lei da Inércia) para argumentar a favor da realidade do espaço-tempo como continuum de pontos (plenum) munido de uma relação de paralelismo e de uma relação de congruência espacial e temporal. O autor mostra que a argumentação de Euler, além de poderosa é surpreendentemente moderna.
No Capítulo 4, Rachel Gazolla de Andrade discute a noção: de tempo para os estoicos antigos, mostrando que a ontologia estoica tem seu solo na noção de corpóreo exposta na Física, seres que agem e padecem. A autora argumenta que os incorpóreos, do qual o tempo, o lugar, o vazio e o exprimível (lektón) fazem parte, têm um estatuto que se desprega da ontologia, mas se expressa a partir dela. As implicações de tal estatuto tem, segundo a autora, grandes consequências no pensamento ético-político da escola.
Em Philoponos e Avempace: a origem do argumento galileano sobre o vazio (Capítulo 5) analisa-se as origens do argumento galileano com respeito à possibilidade do vazio e do movimento com velocidade finita no vazio, tentando estabelecer se, como alguns historiadores da ciência acreditam, Galileo seguiu a tradição que começa com Philoponos de Alexandria (Século VI) e com o árabe espanhol Avempace (1106-1138), onde se pensava que a velocidade de um corpo em movimento fosse determinada pela diferença — e não pela razão, como propunha Aristóteles — entre o peso do corpo e a resistência do meio através do qual ele se move, o que torna o movimento no vazio não absurdo.
Três artigos, (Cap. 6, 7 e 8) compõem a segunda parte deste livro, dedicada ao estudo do tempo na lógica e na filosofia analítica. O Capítulo 6, de autoria de Newton da Costa, Otávio Bueno e Antônio Coelho apresenta uma estrutura matemática (na acepção de P. Suppes) para o tempo físico, no mesmo sentido que uma axiomatização para a geometria pura constitui uma estrutura para "o espaço da física clássica. Para os autores, partindo-se de propriedades topológicas, o tempo físico (idealizado) é construído matematicamente com o auxílio de uma álgebra básica de durações. Deste modo, as idealizações e os pressupostos básicos envolvidos em tal construção pode ser claramente explicitados. Embora semelhante construção tenha sido elaborada a partir de uma posição filosófica inteiramente distinta daquelas adotadas por A.N. Whitehead, B. Russell e R. Carnap, ela se encontra, segundo da Costa, Bueno e Coelho, inspirada largamente nos trabalhos destes autores. A este respeito cumpre notar que, em analogia a uma distinção familiar entre filosofia da matemática e fundamentos da matemática, tal construção proporciona uma contribuição para os funda_mentos do tempo, e não (exceto indiretamente) para sua filosofia.
No Capítulo 7, José Oscar de Almeida Marques apresenta como questão específica de seu trabalho, o papel do espaço e do tempo na ontologia do Tractatus. Marques pretende examinar em que medida eles participam da estrutura última do mundo, e como se relacionam com os famosos “objetos” que, segundo Wittgenstein, são os elementos simples cujas combinações constituem a realidade.
No Capítulo 8, Claudio Pizzi apresenta um estudo sobre a não aceitação da auto evidência da proposição de Aristóteles, relativa à não possibilidade da existência de um período de tempo de comprimento não especificado, durante o qual nenhuma mudança OCOTTA. À terceira parte, dedicada a recentes analises científicas e filosóficas do espaço e do tempo inicia com o artigo de Newton Bernardes (Capítulo 9), onde o autor analisa os pontos críticos do conflito ideológico que separa os físicos diante da interpretação da física atômica experimental no século XX. São contrapostos os pontos de vista da complementaridade de Niels Bohr e do realismo de Einstein. Silvio Chibeni, no artigo “A microfísica e a não-localidade” (Capítulo 10), discute o vigoroso e influente ataque de 1935 de Einstein, Podolsky e Rosen (EPR) à tese, já então dominante, de que a descrição física da realidade fornecida pela mecânica quântica é completa. O argumento de EPR depende crucialmente da assunção de que, em um instante de tempo, os objetos físicos são in_dependentes uns dos outros, desde que estejam separados espacialmente. Neste artigo Chibeni descreve sucintamente o modo pelo qual essa hipótese de localidade intervém no argumento de EPR, e os desenvolvimentos subsequentes que, ironicamente, vieram a mostrar que qualquer tentativa de complementação da descrição quântica da realidade tem de envolver a sua violação.
No Capítulo 11, Osvaldo Pessoa Jr. investiga a natureza do tempo na Física Quântica restrita a poucos corpos e a domínios não-relativísticos. Dois problemas são explorados. Primeiro, a questão concernente à inexistência de um operador auto adjunto de tempo, apesar da duração temporal ser observável através dos mesmos procedimentos usados para as outras variáveis dinâmicas. Examinam-se a história da relação de indeterminação de tempo e energia, e das tentativas de definir tal operador de tempo, que levam à problemática definição de autoestudos não-ortogonais de tempo. A segunda questão explorada é a noção de superposição de estados temporais, que pode ser interpretada como eventos sem instante de ocorrência bem definido. Algumas críticas a esta interpretação são mencionadas, mas ela é defendida tendo em vista um recente experimento de interferência proposto por Franson. Em um Apêndice, apresenta-se uma curta introdução ao formalismo da Mecânica Quântica.
Em Por quê auto-organização? (Capítulo 12), Jairo José da Silva apresenta o paradigma da auto-organização como uma forma de recuperar a potência criadora do tempo real no contexto das ciências naturais.
No Capítulo 13, Alfredo Pereira Jr. e Maria Eunice Gonzales, estudam o conceito de Informação e algumas de suas relações com os conceitos de Organização e Linguagem. -Discutem inicial_mente o conceito antropomórfico de informação, de senso comum, e o comparam com o conceito científico, em especial no contexto da Biologia Molecular. Examinam em seguida os nexos conceituais entre Informação e Organização, propondo que os processos informacionais poderiam ser entendidos como uma “causalidade de segunda ordem”, sobreposta à causalidade física ordinária, através da qual um padrão informacional se transmite da organização de um sistema para a organização de outro sistema. Em seguida, estudam os processos informacionais que se realizam através da linguagem, distinguindo entre os processos informacionais não-linguísticos, linguísticos não-simbólicos e linguísticos simbólicos, o que conduz os autores, finalmente, a uma clarificação dos diferentes tipos de representação da informação.
No Capítulo 14, Alfredo Pereira Jr. faz uma caracterização sumária dos processos auto-organizados, discutindo se o comportamento espacial e temporal dos seres vivos poderia ser considera_do como auto-organizado. Tal questão se desdobra em três níveis de análise: o ontogenético, relativo à história individual de um ser vivo; O filogenético, relativo a uma linhagem evolutiva; e o ecossistêmico, relativo às interações entre as populações de várias espécies em um dado ecossistema.”
Fátima R. R. Évora
ISSN:0103-3147
Primeira Edição, 1995
Índice para catálogo sistemático:
1.Espaço e tempo 115
2.Ciência - História 509
OBS: Este livro é composto por artigos que foram originalmente produzidos para o VIII Colóquio de História da Ciência, dedicado ao tema “Espaço e Tempo”, realizado pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE/Unicamp), em outubro de 1993, em Águas de Lindóia-SP. O tema geral deste livro é a evolução dos conceitos de Espaço e Tempo e suas correspondentes teorias na história da ciência e da filosofia.
References