Auto-Organização: estudos Interdisciplinares (v. 4)
Synopsis
Auto-organização: estudos Interdisciplinares (digital)
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Resumo
“O presente volume de Auto-organização: estudos interdisciplinares reúne trabalhos apresentados nos Seminários do Grupo Interdisciplinar CLE Auto-organização da UNICAMP durante o período de 2004 a 2008. Esse grupo foi criado em 1986, pelo Professor Michel Debrun, que o coordenou até o seu falecimento, em 1997, tendo sido desde então coordenado pela professora ítala M. Loffredo D'Ottaviano. Três volumes já foram publicados pelo grupo: o volume 18 da Coleção CLE, organizado por Michel Debrun, Maria Eunice Q. Gonzalez e Osvaldo Pessoa Jr.; o volume 30 da Coleção CLE, organizado por ítala M. Loffredo D’Ottaviano e Maria Eunice Q. Gonzalez; e o volume 38 da Coleção CLE, organizado por Gustavo M. Souza, ítala M. Loffredo D'Ottaviano e Maria Eunice Q. Gonzalez.
Esta coletânea, dando continuidade aos volumes anteriores, tem como tema central de investigação questões fundamentais sobre a natureza dos processos de auto-organização presentes em sistemas naturais e artificiais. Esses processos, que possuem a capacidade de gerar e manter, por si próprios, as condições de sua organização, são analisados a partir de várias áreas do saber. Um dos aspectos inovadores da obra, resultante desse trabalho coletivo, consiste em que tais investigações são realizadas em uma perspectiva interdisciplinar acessível, em geral, ao leitor não especializado. Nessa perspectiva, os dez capítulos que compreendem esta obra estão organizados em duas partes, que podem ser lidas de modo independente: I) Auto-organização nas Ciências Exatas e Naturais e II) Auto-organização nas Ciências da Vida.
A primeira parte reúne textos sobre Auto-organização nas Ciências Exatas e Naturais, iniciando com o Capítulo 1, Conceitos Básicos de Sistema Dinâmico e Térmico, elaborado por Ettore Bresciani Filho, ítala M. Loffredo D'Ottaviano e Luiz Fernando Milanez. Os autores apresentam e discutem aspectos (noções, conceitos e definições) fundamentais dos Sistemas Dinâmicos e Térmicos, inclusive as Leis da Termodinâmica, com o objetivo de estudar o fenômeno de auto-organização nos processos que fazem parte desses sistemas. Inicialmente são apresentados noções e conceitos fundamentais da teoria dos sistemas, particularmente dos sistemas dinâmicos, necessários à compreensão dos sistemas termodinâmicos. Ao final do texto, os autores apresentam uma síntese relacionando os conceitos de entropia, organização, desorganização e auto-organização para a construção de uma base conceituai que possibilite o estudo de sistemas auto-organizados de natureza física.
No Capítulo 2, a relação entre Auto-organização e Informação é discutida por Maria Luísa Bissoto em: Das (Im)possibilidades da Relação Informação-Auto-organização: uma perspectiva de análise. O objetivo central do capítulo é analisar a definição e as características chave do processo de auto-organização, principalmente no que se refere à informação, como propostas por M. Debrun. A autora compara metodologicamente tais características no contexto de influentes modelos teóricos de compreensão da informação, a saber; o modelo representacional, o modelo emissor-canal-receptor, o modelo de informação entendido como viés de influência transformadora de um sistema e o modelo de informação como redução da incerteza. Partindo da noção de informação, historicamente empregada para designar que algo - um indivíduo, um processo ou um sistema - está em formação, ela considera como essa característica se reveste de importância nas teorizações a respeito do conceito de auto-organização, bem como as relações estabelecidas entre este conceito e aquele de informação. Após análise crítica das bases dos conceitos de informação existentes, e entendendo que um sistema para ser considerado auto organizativo deve ser capaz de gerar e manter por si as condições de sua organização, Maria Luísa sugere que informação deve ser concebida como emergente do próprio processo auto organizativo. No mesmo viés proposto por H. Haken, ela argumenta que informação, antes do que coisa, é um estado atrator que colabora para a ordenação dos recursos do sistema, impulsionando-o a transitar entre diferentes estados ou fases, modificando seus níveis de complexidade organizacional, ao mesmo tempo em que se mantém coeso.
Ricardo Pereira Tassinari discute, no Capítulo 3 - Sobre a Realidade-Totalidade como Saber Vivo e a Auto-Organização do Espaço Físico - o conceito de Realidade, considerada como Totalidade, que busca ser consoante com o desenvolvimento contínuo da Ciência contemporânea e com a possibilidade permanente de construção de modelos; argumentando a favor da hipótese de que, segundo esse conceito, a Realidade enquanto Totalidade pode ser concebida como Saber vivo e ativo, Ideia se auto expondo a nós por um processo auto-organizado, do qual faz parte nosso próprio processo de conhecimento a seu respeito. O autor procura mostrar como essa hipótese surge, de forma natural, a partir de reflexões a respeito da constituição do conhecimento científico, fornecendo elementos que possibilitam estruturar e coordenar os diversos conteúdos e métodos científicos. A noção de espaço físico utilizada por Tassinari é considerada tanto a partir de sua sociogênese, segundo o desenvolvimento da Física (em particular, das Relatividades Restrita e Geral), quanto a partir de sua psicogênese, segundo dados da Psicologia Genética e da Epistemologia Genética. A sua conclusão provisória é que o próprio Espaço e a noção de permanência dos objetos, a partir dos quais situamos o que chamamos de objetos físicos e suas propriedades, são construídos de forma auto-organizada. No texto, o Princípio da Idealidade está subjacente ao que o autor designa com o signo Espaço Físico e sua constituição auto-organizada, como, também, à própria noção de objeto permanente e sua constituição auto-organizada, que será a base para outras noções de conservação (como, por exemplo, da quantidade de massa ou, ainda, de energia) e de identidade.
No Capítulo 4, Lauro Frederico Barbosa da Silveira apresenta em O Desenvolvimento do Conceito de Tempo na Filosofia de Charles Sanders Peirce uma instigante análise sobre a natureza do tempo no pensamento do filósofo pragmatista, percorrendo uma série de textos escritos desde 1860 até os últimos anos de sua produção teórica em 1908. Ele argumenta que o estudo sobre a formação e o desenvolvimento do conceito de tempo é fundamental para a compreensão do pensamento de Peirce, pois reúne vários componentes que ilustram a inseparável união entre ciência e filosofia visando a conduta humana e o processo evolutivo do universo, dois marcos fundamentais na sua concepção realista de ciência. Respeitando a ordem cronológica dos textos disponíveis, o autor procura ressaltar a evolução da problemática da natureza do tempo ao longo da trajetória do pensamento de Peirce, apresentando questões, bem como o tratamento a elas oferecido, que parecem caracterizar cada uma dessas etapas. A originalidade e a profundidade da reflexão Peirceana sobre o conceito de tempo são ressaltadas neste capítulo, convidando o leitor a compartilhar a clareza de uma investigação extremamente lúcida a respeito do processo evolutivo do cosmos.
A Parte I finaliza com o Capítulo 5, O Papel das Relações Informacíonais na Auto-organização Secundária. Nesse capítulo, Alfredo Pereira Júnior e M. Eunice Quilici Gonzalez analisam os princípios que caracterizam a dinâmica temporal na geração de relações de dependência mútua entre os componentes de um sistema durante o processo de auto-organização secundária. Essas relações são denominadas pelos autores de relações informacionais. Tais relações permitem uma variedade de ajustes entre os componentes de sistemas formados, originalmente, nos processos de auto-organização primária. Os autores argumentam que tal dinâmica se expressa em termos de processos não-lineares de três tipos: cooperativos, estacionários e conflituosos, a partir dos quais emergem novos padrões organizacionais. São caracterizadas quatro modalidades de informação relevantes no processo de auto-organização secundária: a) a informação estrutural; b) a informação ambiental; c) a informação contextual, e d) a informação antecipatória.
A Parte II, Auto-organização nas Ciências da Vida, reúne cinco capítulos. No capítulo 6, Auto-organização e Ação: uma abordagem sistêmica da ação comum, Mariana Claudia Broens discute o alcance das explicações mecanicistas e reducionistas dos processos complexos observados em sistemas cognitivos biologicamente situados e incorporados, defendendo uma abordagem sistêmica, não redutiva, de fenômenos auto-organizados. Segundo a autora, o estudo da natureza da ação dos organismos (e de noções a ela relacionadas, como as de autonomia, intencionalidade e responsabilidade) não pode ser satisfatoriamente realizado a partir de teses comprometidas com a ontologia dualista e tampouco com os primados do fisicalismo mecanicista. Mariana argumenta que a abordagem sistêmica dos padrões de ação tem a virtude de situar tais padrões em um contexto teórico diverso daquele proposto pelo mecanicismo clássico; tal abordagem possibilita um enfoque fisicalista não redutivo, que leva em conta a dimensão qualitativa própria dos organismos. Exemplos são fornecidos, ilustrando a possibilidade de se, entender certos fenômenos da vida como emergentes como sendo propriedades do sistema irredutíveis aos elementos que o constituem. Sua hipótese central é a de que o reconhecimento dos padrões de ação dos organismos, quando realizado a partir de uma perspectiva que leve em conta a auto-organização, permite que aprofundemos a compreensão das ações intencionais e de suas diversas implicações, inclusive nos contextos sociais e legais.
No Capítulo 7, Auto-organização e Autonomia, Wíllem Ferdinand Gerardus Haselager e Maria Eunice Q. Gonzalez discutem o conceito de autonomia na perspectiva da teoria da auto-organização (TAO) e da teoria dos sistemas dinâmicos (TSD), argumentando em defesa da hipótese que a compreensão das teses centrais da TAO e da TSD pode nos ajudar no entendimento da noção de autonomia na era da globalização. Segundo os autores, com a experiência da globalização, vivida atualmente na maioria das sociedades, os estudos sobre autonomia focalizam as ações humanas, e os valores a elas associados, que envolvem a capacidade de autotransformação. De acordo com essa perspectiva, a sociedade pode ser entendida como um complexo sistema dinâmico, possuidor de princípios próprios, auto organizadores, que governam o seu desenvolvimento em múltiplas dimensões. Uma hipótese central dos autores é que os processos auto-organizadores, presentes na criação de hábitos individuais ou coletivos, são fundamentais para a definição da autonomia dos sistemas. No caso de sistemas complexos, como aqueles que reúnem os hábitos coletivos da sociedade humana, a mudança de uma ordem global estabelecida não é sempre dependente de causas evidentes e preestabelecidas. Não existe uma receita para a transformação da ordem global desse tipo de sistema, justamente porque os fatores complexos, relevantes para a sua alteração, estão muitas vezes ocultos. Contudo, os autores ressaltam que o comportamento efetivo das pessoas constitui um fator importante para o desencadeamento de mudanças: são as ações de certos indivíduos, como por exemplo, as de Gandhi ou Mandela que influenciam e algumas vezes transformam radicalmente mentalidades e situações no mundo.
No Capítulo 8, A Filosofia diante da Ciência Contemporânea, Carmem Beatriz Milidoni discute os limites entre ciência e filosofia partindo de uma perspectiva histórica, alcançando a contemporaneidade do Paradigma da Complexidade. Nesse contexto atual, a autora observa que há uma maior aproximação entre o pensamento científico e o pensamento filosófico. Mas, essa aproximação se daria mais em um plano formal do olhar metodológico, pois, como considera, não cabe à Filosofia utilizar-se de metodologias para validar questões empíricas, o que seria próprio das ciências. Sendo assim, poder-se-ia considerar que a significativa aproximação a ser conquistada entre Ciência e Filosofia diria respeito principalmente a uma questão de atitude envolvendo o olhar da complexidade. Segundo Milidoni, isto aconteceria, sobretudo, pela seguinte razão: Pode ser que o pensamento complexo, que hoje germina na atividade científica, se tome um ideal a ser cultivado, se não por todas as vertentes filosóficas, pelo menos por aquelas que pretendem ter visões mais totalizantes da realidade.
No Capítulo 9, Restrição e Desrestriçâo na Evolução Multicelular: polimorfismos proteicos em redes metabólicas, Romeu Cardoso Guimarães discute a evolução multicelular de seres vivos na perspectiva da auto-organização, supostamente presente no metabolismo biológico. Segundo propõe o autor, redes metabólicas biológicas são totalidades integradas, arquiteturais e materiais, que somente podem ser fundidas e mescladas quando muito simples. Com o aumento da complexidade, as redes não se fundem, exigindo a anisogametia (formação de gametas desiguais entre si) e o desenvolvimento consequente da dominância materna e do custo reprodutivo imposto às populações que albergam os machos micro gaméticos. A partir do estudo de polimorfismos proteicos (diferentes formas estruturais da mesma proteína), ao longo da evolução, alguns padrões podem ser destacados. Nos organismos multicelulares, os níveis globais de polimorfismos decrescem de plantas para invertebrados e vertebrados nas proporções de, respectivamente, 3: 2: 1. Essas taxas decrescentes são paralelas aos graus crescentes de complexidade orgânica descrita, entre outros parâmetros, pelos números de tipos celulares e pelos planos corporais. O autor ressalta que a organização em redes requer especificidade estrita em muitas interações, introduzindo restrições e intolerância à variabilidade dos componentes. No texto são apresentados e discutidos vários exemplos de restrições a polimorfismos e os mecanismos de desrestrição evoluídos em diferentes grupos de organismos multicelulares.
A Parte II finaliza com o Capítulo 10 - A Cognição como um Processo Auto-organizado e Autorreferente em Sistemas Complexos Adaptativos - elaborado por Daniel Santa Cruz Damineli e Gustavo Maia Souza. Os autores supõem que na base dos processos de interação de sistemas biológicos com seu ambiente está uma rede auto-organizada hierarquizada que permite, a partir de formação de esquemas internos nessa rede, um processo adaptativo de evolução sistema-ambiente. Nesse contexto, eles argumentam que a cognição pode ser caracterizada como um processo autorreferido, já que a partir da interação dos elementos de uma rede surge um comportamento cuja influência no meio altera a modulação dos padrões de interação entre os elementos: uma propriedade auto-organizada que emerge da modulação e desenvolvimento das redes de um sistema. Tal sistema, por sua vez, seria capaz de alterar o padrão de relações entre elementos de suas redes constituintes em função de suas relações com o ambiente. Ao final, os autores lançam a discussão sobre o cérebro, concebido como um sistema de redes especializadas em representar as suas relações com o meio. No caso do ser humano, por exemplo, a consciência poderia ser entendida como um processo autorreferido do processo cognitivo? Isto é, a possibilidade de representar o funcionamento da própria rede representacional? Uma "cognição da cognição"?
As várias perspectivas apresentadas nesta coletânea sobre a temática da auto-organização na filosofia e nas ciências ilustram mais uma etapa da pesquisa interdisciplinar dos autores que, conquanto almejem oferecer um tratamento rigoroso do tema, reconhecem o longo caminho ainda a percorrer na compreensão de um tema tão complexo. Fica aqui um convite para o desenvolvimento do caminho até aqui percorrido.”
ETTORE BRESCIANI FILHO
ÍTALA M. LOFFREDO D'OTTAVIANO
MARIA EUNICE Q. GONZALEZ
GUSTAVO MAIA SOUZA (orgs.)
Volume 52 – 2008
ISSN: 0103-3147
Índice para catálogo sistemático
- Sistemas auto-organizadores 003.7
OBS. O presente volume de Auto-organização: estudos interdisciplinares reúne trabalhos apresentados nos Seminários do Grupo Interdisciplinar CLE Auto-organização da UNICAMP durante o período de 2004 a 2008 e corresponde ao quarto volume sobre o tema. Aqui são apresentadas questões fundamentais sobre a natureza dos processos de autoorganização que se encontram nos vários eventos e atividade que nos constituem e nos cercam.
References