Século XIX: o nascimento da ciência contemporânea

Authors

Fátima R. R. Évora

Synopsis

Século XIX: O nascimento da ciência contemporânea (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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"O presente volume é constituído por parte das Atas do VII Colóquio de História da Ciência, dedicado ao tema Século XIX: O Nascimento da Ciência Contemporânea, que teve lugar em Águas de Lindóia, de 12 a 15 de outubro de 1991.

Organizados, desde 1985, pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), da UNICAMP, os Colóquios de História da Ciência têm por objetivo estimular a produção, divulgação e discussão de trabalhos, de alto nível acadêmico, sobre História da Ciência.

Tradicionalmente nossos Colóquios de História da Ciência são temáticos, propiciando a discussão aprofundada dentro de um único tema geral com o qual todos os participantes estão familiarizados.

O século XIX, período ao qual foi dedicado este VII Colóquio, insere-se historicamente em um período mais amplo que se inicia com a Revolução Francesa e estende-se até a Primeira Grande Guerra. Esta "época de ouro" da ciência, que deu origem à ciência contemporânea, caracterizou-se pelo divórcio entre a ciência e a filosofia, e assistiu ao desenvolvimento de métodos experimentais e matemáticos, fundados na dinâmica de Newton e na química quantitativa de Lavoisier e, sem dúvida, foi marcada por magníficos êxitos das ciências exatas e naturais acompanhados de aprimoramentos cada vez maiores de instrumentos de medidas de grande precisão e de importantes aplicações técnico-industriais.

Organizam-se novos domínios da física, química e matemática, e já na primeira metade do século XIX ocorrem importantes desenvolvimentos representados, por exemplo, pela ascensão da teoria ondulatória da luz, pelo estudo da corrente elétrica e da relação entre eletricidade e magnetismo, pelo início da termodinâmica e pela determinação do princípio de conservação de energia.

A partir da segunda metade do século XIX ocorre o estabelecimento da termodinâmica e da mecânica estatística, surgem várias teorias eletromagnéticas, culminando com a descoberta das ondas eletromagnéticas, e intensificam-se as polêmicas relativas ao éter.

Os diferentes ramos da matemática têm, ao longo do século XIX, um magnífico desenvolvimento que, juntamente com novas abordagens lógicas dão origem à matemática formalizada do século XX.

Face ao domínio extremamente amplo da ciência no século XIX, o Comitê Organizador do VII Colóquio de História da Ciência concluiu ser impossível em um único colóquio dominar o conjunto da produção científica deste período. Assim sendo, optou-se por enfocar, neste evento, alguns aspectos da ciência do século XIX que, a nosso ver, foram fundamentais para o nascimento da ciência contemporânea.

A partir de uma perspectiva lakatosiana de que a filosofia da ciência sem história da ciência é vazia e história da ciência sem filosofia da ciência é cega procurou-se também enfatizar, neste colóquio, a estreita ligação existente entre história da ciência e filosofia da ciência.

Assim, foi dedicado um espaço à discussão sobre racionalidade epistêmica e sobre a metodologia científica deste período, e à análise da relação entre ciência e filosofia e da noção de crise das ciências que surge a partir do final do século XIX.

Mesmo as análises históricas específicas, como as do surgimento da teoria eletromagnética, dos trabalhos de Hertz e Helmholtz e da origem da mecânica estatística, foram feitas sem perder de vista as conseqüências epistemológicas que derivam destes estudos de casos.

Foram escolhidos para este Colóquio os seguintes temas específicos:

1) A ciência e método em Duhem e Mach; 2) Comte e o positivismo científico; 3) Frege e a lógica moderna; 4) O nascimento das lógicas não-clássicas; 5) As geometrias não-euclidianas; 6) O surgimento da teoria eletromagnética; 7) A ciência e a filosofia de Poincaré; 8) A termodinâmica e as origens da mecânica estatística e 9) O nascimento da mecânica quântica e da cristalografia.

Procurou-se reproduzir neste volume o tratamento tópico que estruturou o VII Colóquio de História da Ciência, dividindo-o em partes dedicadas aos temas específicos acima citados.

Na Parte I é feita uma análise da relevância da filosofia da ciência para a história da ciência, e vice-versa, a fim de fornecer subsídios para a reflexão sobre o estatuto ontológico da história da ciência.

As partes II e IV são dedicadas respectivamente a Frege e à lógica moderna, às geometrias não-euclidianas e ao nascimento das lógicas não-clássicas.

  1. Wrigley, no Capítulo 2, discute aspectos centrais da visão fregeana da natureza da lógica, tais como a sua rejeição da possibilidade de uma perspectiva metaiógica, que ao ver de Wrigley são bastante diferentes das modernas visões. E discutido ainda como estes aspectos da concepção de J. Gottlob Frege (1848-1925) moldaram os resultados filosóficos que este esperava obter pela redução da matemática à lógica. J. Y. Béziau, no Capítulo 3 discute o princípio de razão suficiente (Nihilest sine ratione) e a lógica da filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860).

Os artigos dos Capítulos 5, 6, 7 e 8 correspondem às participações de Newton da Costa, ítala D'Ottaviano, Cláudio Pizzi e Walter Carnieili, respectivamente, na mesa redonda intitulada O nascimento das lógicas não-clássicas, que foi coordenada por Andréa M. A. Loparic. As participações de da Costa e Pizzi foram impressas essencialmente na forma em que foram apresentadas no Colóquio, enquanto que os trabalhos de ítala e Carnielli são versões ligeiramente modificadas de suas contribuições originais.

Da Costa caracterizou, através do ambiente matemático do século XIX, o surgimento da lógica matemática clássica formalizada e das lógicas não-clássicas. A seguir, ítala, a partir de uma análise sucinta do desenvolvimento da lógica de Aristóteles (384-322 a.C.) até o final do século XIX procurou caracterizar a sistematização contemporânea da lógica clássica e o surgimento das lógicas não-clássicas em geral, introduzindo com mais detalhes as lógicas polivalente e paraconsistente. Pizzi abordou questões relativas às lógicas modais e às lógicas intuicionistas. Finalizando a mesa redonda, Carnielli discutiu algumas aplicações contemporâneas das lógicas não-clássicas em geral.

Viero, no Capítulo 9, examinou algumas questões conceituais relativas ao advento das geometrias não-euclidianas, procurando entender, a partir deste exame, todo o movimento que culminou com o surgimento das geometrias não-euclidianas no século XIX.

A ciência e filosofia de Henri Poincaré (1854-1912) é alvo de análise na Parte III, Capítulo 4, onde Jairo da Silva enfoca diversos aspectos da filosofia da matemática em Poincaré, tais como o seu convendonalismo em geometria, o seu anti-logicismo em aritmética e as suas restrições às definições matemáticas pelo princípio do círculo vicioso.

A quinta parte deste volume é dedicada à ciência e método em Mach e Duhem. No Capítulo 10, Pablo Mariconda faz uma reavaliação da posição de Pierre Duhem (1861-1917) concernente à revolução científica do século XVII centrando a discussão na contribuição de Galileo (1564-1642). Mariconda divide sua análise da visão de Duhem em duas partes: na primeira discute a tese duhemiana da continuidade do desenvolvimento científico aplicada à mecânica, e na segunda, reavalia a crítica de Duhem à defesa realista da cosmologia no século XVII.

Michel Ghins, no Capítulo 11, analisa o programa para uma teoria da gravitação e da inércia proposto por Ernest Mach (1838-1916) discutindo as dificuldades internas desta teoria. Ghins procura mostrar que o programa de Mach, tal como ele o apresenta, não satisfaz às exigências empiristas machianas. O artigo segue refletindo sobre a exigência machiana de relatividade dinâmica em relação à teoria da relatividade geral de Einstein.

Um resgate histórico-metodológico do aparelho didático proposto por Morin, em meados do século XIX, para o estudo da queda dos corpos desde o The Science of Mechanics de Ernest Mach, é feito por Danhoni no Capítulo 12.

A parte VI é dedicada às discussões sobre o positivismo científico e empirismo no século XIX. No Capítulo 13, as tentativas de John Stuart Mill (1806-1873) e John Keynes (1883-1946) de resolver o problema da indução de Hume (1711-1776) é analisado por Guerreiro. Oliva, no Capítulo 14 procura mostrar como o positivismo está longe dos clichês epistemológicos que o apresentam como um estreito fatualismo. Com isso, o autor pretende tornar manifesto que as críticas ao observacionalismo, especialmente candentes na filosofia da ciência posterior aos anos 20, não atingem tão profundamente a filosofia da ciência comteana quanto seus críticos sugerem.

O papel do quadro conceituai estabelecido por Emile Durkheim (1858-1917) na consolidação da Sociologia como disciplina científica é discutido por Bonfim no Capítulo 15.

As questões epistemológicas envolvidas no nascimento da ciência contemporânea continuam sendo alvo de discusão na parte VII. Luiz Dutra, no Capítulo 16, procura mostrar em que medida o método experimental elaborado por Claude Bernard (1813-1878) antecipa a metodologia do falseamento proposta por Karl Popper (1902- ) cerca de meio século mais tarde.

As profundas transformações ocorridas no campo da ciência a partir do final do século XIX representaram um rico material para a reflexão filosófica, metodológica e histórica sobre a ciência, estimulando o aparecimento de novas teorias e sistemas epistemológicos. Marly Bulcão analisa duas destas teorias que, embora diferentes procuram, segundo a autora, compreender as revoluções da ciência contemporânea a partir da crítica à idéia de razão absoluta.

Os processos e paradigmas segundo a teoria crítica de Jurgen Habermas (1929- ) são discutidos por Marconi no Capítulo 17.

A oitava parte deste volume é dedicada ao nascimento da mecânica quântica e da cristalografia, assim como à evolução da análise dimensional.

Fernando Lobo Carneiro, no Capítulo 19, discute a evolução da análise dimensional a partir de 1890, com as contribuições de Vaschy, quando a análise dimensional começa a ser aplicada de modo sistemático à formulação das equações físicas, à interpretação de resultados experimentais e ao estabelecimento das condições de semelhança. O artigo de Lobo Carneiro discute ainda as contribuições de Lord Rayleigh (1842-1919), Albert Einstein (1879-1955) e Buckingham (1867-1940) a esta nova etapa da análise dimensional, que conta com o chamado "teorema </>" como sua principal ferramenta.

O nascimento da mecânica quântica é analisado por Cintra Martins, no Capítulo 20, dedicado ao estudo dos antecedentes imediatos da descoberta por Max Planck, em 1900, de que o átomo somente pode emitir ou absorver energia em quantidades discretas, múltiplas de uma quantidade elementar, proporcional à freqüência de radiação: os "quanta" de energia. A publicação, em 1900, das novas concepções planckianas marca, segundo Cintra, o nascimento da mecânica quãntica.

Mabel Rodrigues analisa, no Capítulo 21, as origens, no século XIX, da cristalografia de Raios X, que se estabeleceu no século XX, com os trabalhos sobre difração de raio X de Max Laue e dos Bragg, pai e filho. Este artigo discute particularmente os conceitos básicos de simetria, desenvolvidos durante o século XIX, que permitiram a aplicação do fenômeno recém-descoberto às substâncias cristalinas.

O surgimento da teoria eletromagnética, da termodinâmica e as origens da mecânica estatística são objetos de análise da última parte deste volume, começando com um artigo de P. Abrantes dedicado à discussão da física e da filosofia da ciência de H. Hertz (1857-1894) e suas relações com seu trabalho científico.

Hertz, Mach, Duhem, Boltzmann e Poincaré, como Abrantes aponta, fazem parte daquele grupo de grandes cientistas, da segunda metade do século XIX, que também se destacaram pela profundidade de sua reflexão filosófica, exercendo influência decisiva sobre a filosofia da ciência do nosso século. Segundo Abrantes, o estudo da interação entre a prática científica e a auto-consciência metodológica e axiológica encontra nestes autores um rico material, que sem dúvida nos leva a refletir sobre a tendência, em correntes de filosofia da ciência contemporânea, de se demarcar de forma excessivamente nítida o contexto da descoberta e o contexto de justificação, o nível do conhecimento substantivo e o nível do conhecimento metodológico.

No Capítulo 23, Mello e Souza analisa as idéias fundamentais de Hermann von Helmholtz (1821-1894) com respeito à conservação da energia, refletindo sobre a visão essencialmente mecanidsta da natureza de Helmholtz.

A história da mecânica estatística e da termodinâmica é analisada nos dois capítulos finais por Borisas Cimbleris e Eunice Gonzales.

Cimbleris faz, no Capítulo 24, um paralelo entre três artigos de Albert Einstein (1879-1955) publicados entre os anos de 1902 e 1904 sobre os fundamentos da física estatística e o livro de Gibbs (1839- 1903) sobre mecânica estatística, publicado em 1902, discutindo as diferenças epistemológicas destas abordagens.

Eunice, por sua vez, dedica seu artigo, no Capítulo 25, à analise de alguns aspectos históricos e metodológicos da ciência do século XIX que desempenharam um papel fundamental no nascimento da ciência cognitiva, que foi estabelecida há mais ou menos trinta anos, mas que, segundo a autora tem suas raízes na mecânica estatística e na termodinâmica do século XIX."

 

Fátima R. R. Évora

 

Volume 11 – 1992

ISSN: 0103-3147

Primeira Edição, 1992

Índice para catálogo sistemático

  1. Ciência: História; Séc. XIX

OBS. O presente volume corresponde aos Proceedings do VII Colóquio de História da Ciência, dedicado ao tema Século XIX: O nascimento da ciência contemporânea, organizado pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, ocorrido de 12 a 15 de outubro de 1991. Procurou-se reproduzir neste volume o tratamento tópico que estruturou o VII Colóquio, dividindo-o em partes dedicadas aos mesmos temas específicos enfocados nas várias partes do Colóquio. 

References

Coleção CLE - Volume 11

Published

November 3, 1992

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How to Cite

R. R. ÉVORA, Fátima. Século XIX: o nascimento da ciência contemporânea. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP),1992. v. Coleção CLE - Volume 11 Disponível em: https://www.cle.unicamp.br/ebooks/index.php/publicacoes/catalog/book/153. Acesso em: 17 jun. 2026.