Informação, Complexidade e Auto-Organização: Estudos Interdisciplinares
Synopsis
Informação, Complexidade e Auto-Organização: Estudos Interdisciplinares (digital)
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Resumo
“Esta coletânea de artigos é uma homenagem aos 60 anos da Professora. Maria Eunice Quilici Gonzalez. Nela estão reunidos vários artigos de alguns de seus principais ex-alunos e colaboradores, versando sobre os temas da Auto-Organização, Complexidade e da Filosofia da Informação.
Em 1978, Maria Eunice chega à UNICAMP para cursar o Mestrado em Lógica e Filosofia da Ciência. O Mestrado, naquela época, era oferecido pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o CLEHC, ou simplesmente CLE como passou a ser chamado por professores e alunos. O CLE acabara de ser inaugurado pelo seu fundador e diretor (por muitos anos) o Prof. Oswaldo Porchat. Era uma iniciativa pioneira no país, que visava estimular o estudo da Filosofia da Ciência e da Filosófia Analítica no Brasil que, já havia alguns anos, andava de lado, sem grandes progressos. A maioria dos professores que se afiliou ao CLE e que passaram a dar aulas na Pós-Graduação tinha saído da USP, mas havia também muitos professores estrangeiros e professores visitantes que chegaram ao Brasil atraídos pela proposta inovadora do CLE.
A proposta do CLE era, também, formar os melhores professores de Filosofia do Brasil e, por isso, os alunos tinham de fazer muitos cursos antes de apresentar sua dissertação de Mestrado. É preciso lembrar que, nessa época, o final dos anos 1970 e início dos 1980, um Mestrado no Brasil durava uma média de cinco anos ou mais. Poucas pessoas tinham Mestrado em Filosofia no Brasil, mesmo aquelas que já integravam os quadros universitários de várias instituições públicas. Por isso, professores de Filosofia de várias partes do Brasil afluíram ao CLE.
Mas, havia ainda algo mais interessante no início do CLE. Ele abriu a perspectiva para que alunos graduados em Ciências, sobretudo Física e Matemática pudessem cursar um Mestrado em Filosofia.
Maria Eunice tinha acabado de se formar em Física pela UNESP/ Rio Claro e, como todos os físicos, tinha muitas indagações filosóficas que tinham ficado no ar. Por ocasião do seu ingresso no CLE as questões ainda eram muitas e, só algum tempo depois, ela se decidiu por estudar um dos temas mais interessantes da Filosofia da Ciência: a natureza da descoberta científica. Essa possibilidade foi aberta pelo Professor Željko Loparić, um integrante do corpo docente do CLE que tinha um leque grande de interesses em diversos temas filosóficos.
As questões que Maria Eunice enfrentava no seu Mestrado eram complexas. Será que as descobertas científicas são sempre produto de um acaso feliz, a famosa “serendipity” da qual, até hoje, falam os americanos? A maçã que caiu na cabeça de Newton ou o sonho de Kekule que deu origem à química orgânica? Havia também uma outra questão candente: será que os processos psicológicos que levam à descoberta não poderiam ser abordados pela Psicologia Cognitiva e, a partir dessa abordagem, serem, então, mecanizados, ou seja, realizados por um programa de computador?
Naquela ocasião ainda não se falava quase nada sobre Inteligência Artificial no Brasil. Nos anos 1970 tinham aparecido os sistemas especialistas nos Estados Unidos e havia notícia de que um deles tinha realizado uma descoberta importante em prospecção de petróleo. Mas ainda era tudo muito vago.
Maria Eunice começara a ler filósofos como N.R. Hanson, K. Popper, que tinham visões diferentes sobre a natureza da descoberta científica. Leu também alguns pioneiros da inteligência artificial como, por exemplo, Alan Newell e Herbert Simon.
Mas, o evento mais interessante, a “serendipity” ocorreu em 1980. O filósofo inglês Andrew Woodfield, da University of Bristol, veio ao Brasil para uma visita a vários departamentos de Filosofia do país. O encontro com Woodfield mudou totalmente o rumo de nossas ambições filosóficas. Ele foi o primeiro a falar de Filosofia da Mente e a estimular leituras de autores como Daniel Dennett, Jerry Fodor, John Searle e outros filósofos da mente contemporâneos. Durante um bom tempo passamos a ler sobre Filosofia da Mente, paralelamente ao desenvolvimento de nossas dissertações de Mestrado.
Em Junho de 1984, Maria Eunice apresentou sua dissertação e, em seguida, ingressou também no Departamento de Filosofia da UNESP- Marília. Dois anos depois Maria Eunice e eu conseguimos uma bolsa de estudos para fazer o doutorado na Inglaterra, em Filosofia da Mente, pois não havia essa possibilidade no Brasil. Os tempos eram outros, difíceis de imaginar para um estudante de Pós-Graduação brasileiro no século XXI. Não era fácil para um brasileiro conseguir ser aceito para fazer um Doutorado em uma universidade inglesa. Havia pouquíssimo intercâmbio entre Brasil e Inglaterra na área filosófica. Tudo o que se tinha, naquela época, eram contatos com a França, com a Bélgica e um pouco com a Alemanha.
Havia dificuldades práticas também. Na década de 1980 o Brasil estava em uma crise cambial profunda. Não entrava e nem saia moeda estrangeira sem uma autorização do Banco Central, difícil de conseguir. Não havia internet, tudo era feito por cartas, que demoravam semanas para ir e vir. Era um mundo inimaginável para os nativos digitais.
Fomos para a University of Essex, em Colchester, onde, em 1984, iniciamos o Doutorado na área de Filosofia da Mente. Maria Eunice queria estudar percepção, um assunto muito discutido em ciência cognitiva e também em filosofia da mente. Inicialmente estivemos sob a supervisão do mesmo orientador, o Professor A.D. Smith, mas algum tempo depois, Maria Eunice resolveu focalizar sua pesquisa no estudo das redes neurais artificiais, do qual surgiu seu interesse atual pela Auto-Organização e pela Filosofia da Informação. Em 1990, Maria Eunice já tinha retornado da Inglaterra com seu doutorado concluído e reassumia seu cargo na UNESP/Marília.
Pouco tempo depois, Maria Eunice fundou a Sociedade Brasileira de Ciência Cognitiva (SBCC) que passou a funcionar a partir de 1995. Um ano depois ela partiria para uma de suas iniciativas mais ousadas. Em 1996, lutando contra forças conservadoras de todos os tipos, instala na UNESP/ Marilia o primeiro mestrado em Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva.
Essa trajetória intelectual, aqui apenas esboçada em seus traços gerais, é que buscamos homenagear nesta coletânea."
João de Fernandes Teixeira
Organização:
Mariana Claudia Broens
João Antonio de Moraes
Edna Alves de Souza
VOLUME 73 – 2015
ISBN 978-85-86497-23-0
Índice para catálogo sistemático:
- Sistemas auto-organizadores 003.7
References