Wittgenstein: conhecimento e ceticismo

Authors

Arley R. Moreno

Synopsis

Wittgenstein: Conhecimento e Ceticismo (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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“Temos o prazer de apresentar neste volume o material selecionado do Colóquio Wittgenstein, em sua décima versão nacional e sétima internacional. O tema proposto foi “Wittgenstein — Conhecimento e Ceticismo”, realizado durante os dias 14 a 16 de outubro de 2016 no IFCH/UNICAMP, com o apoio do Departamento e do Programa de Filosofia.

Tivemos a oportunidade de contat com a participação de colegas estrangeiros e brasileiros que muito contribuíram, como se verá, para alta qualidade do material apresentado — assim como dos debates.

O tema proposto apresenta um desafio para todos os que se debruçam sobre temas epistemológicos em geral, e, em particular, para os que se interessam pelo pensamento de Wittgenstein. De fato, o filósofo nos apresenta uma reflexão aprofundada sobre temas que já haviam sido tratados — no sentido terapêntico de sua filosofia — e os expande para novos aspectos das mesmas questões. Este procedimento está de acordo com a sua concepção de progresso em filosofia, tal como exposta em um dos prefácios que não foram publicados às Investigações Filosóficas. Progresso, neste caso, seria o aprofundamento das mesmas questões, e não a obtenção de novos resultados que viriam a substituir outros resultados, como sendo mais próximos à verdade. Neste sentido, o derradeiro texto legado por Wittgenstein corresponde bem a esta concepção de progresso filosófico, aplicada à sua própria atividade.

Alguns comentadores de Wittgenstein querem ver na trajetória do filósofo uma série de fases distintas, como se fossem marcadas por rupturas, e, inclusíve, uma derradeira fase próxima ao naturalismo epistêmico que estaria presente nos textos organizados sob o título de Sobre a Certeza, textos organizados por seus herdeiros, mas não pelo próprio filósofo. Assim, os editores do livro selecionaram e juntaram observações sobre temas que julgaram estar mais próximos entre si, e girando em torno da terapia que Wittgenstein faz da concepção de certeza apresentada por Moore. Assim, esses textos foram extraídos de seus contextos mais amplos dos escritos sobre filosofia da psicologia, que Wittgenstein se dedicou a redigir nos últimos anos de vida — após ter interrompido a organização dos textos que deviam compor o seu “álbum”, as Investigações — dando lugar a discussões paralelas, mas diretamente interconectadas às anteriores, sobre conceitos matemáticos, psicológicos e conceitos de cor. O texto editado e publicado sob o título de Sobre a Certeza é, assim, um extrato de textos do fluxo em que foram produzidos, o que elimina aquilo que talvez fosse a preocupação maior de Wittgenstein ao redigi-los, a saber, expor a visão panorâmica das filiações entre conceitos de diferentes jogos de linguagem.

Esse procedimento editorial é bastante prejudicial no caso de um filósofo com as características de estilo de Wittgenstein. Como sabemos, sua prática filosófica não consistia em separar os temas a serem tratados, mas, pelo contrário, em tratar diversos temas em continuidade, com repetições temáticas e com saltos entre temas. Este procedimento, muito bem praticado nas Investigações, não é a expressão, tão somente, de uma idiossincrasia do autor, mas, sobretudo, e mais profundamente, de seu método filosófico de esclarecimentos conceituais. Esclarecimentos que são, a seu ver, aprofundamentos de dificuldades que, todavia, persistem quando consideradas sob novos aspectos. Daí a necessidade de retomar as mesmas questões e de aprofundá-las. Esta seria, segundo o filósofo, uma caraterística da reflexão filosófica, ou melhor, de toda reflexão sobre o sentido, e não sobre causas — e de uma reflexão que se pretenda terapêutica de confusões conceituais.

É esta dimensão que fica perdida, com o procedimento editorial dos textos de Wittgenstein, a exemplo de Sobre a Certeza. Uma consequência gtave da supressão do fluxo de produção dos textos manuscritos, corrigidos e modificados pelo próprio filósofo, é a proliferação de diferentes fases do seu pensamento, como se houvesse hiatos entre elas, e não uma profunda continuidade entre sucessivos enfoques terapêuticos dos temas abordados. Claro está que a própria concepção de um método terapêutico aplicado a cada questão — por oposição a um método como conjunto de regras previamente estabelecidas para serem aplicadas a todas as questões — esta concepção também tem sua gênese e sua história na atividade do filósofo. Todavia, uma vez estabelecida, por volta da metade dos anos 30, e mais decididamente assumida após Livro Marrom, com a composição da última versão das Investigações, esta concepção de método terapêutico revela-se como sendo a melhor expressão do próprio estilo de filosofar de Wittgenstein, assim como à sua concepção de questão filosófica e de seu tratamento. Por esta razão, não deveria ser negligenciada quando da edição dos textos a serem publicados, por parte dos editores.

Por outro lado, e complementarmente, esta falha editorial deveria ser levada em conta pelos comentadores do filósofo, o que permitiria evitar a proliferação de teorias mais ou menos aleatórias, sobre a existência e fases bem delimitadas e separadas de sua atividade filosófica. Ao invés de perguntar sobre os pontos de cisão entre supostas fases de seu pensamento, sería mais proveitoso e, sobretudo, pertinente procutar as transformações conceituais ocorridas durante seu longo percurso, marcadas, está claro, por mudanças de concepção e de conceitos, mas não pot cisões radicais. Na verdade, os mesmos temas e preocupações do Tractatus estão presentes em Sobre a Certeza — como, p. ex., os do ceticismo e seu absurdo, da certeza lógica e o conhecimento de fatos — tratados diferentemente segundo os novos conceitos criados no decorrer dos anos, mas sempre no sentido de um aprofundamento das questões, e jamais da substituição por resultados mais próximos à verdade. As análises presentes em Sobre a Certeza não são resultados mais importantes que deveriam substituir aqueles a que havia chegado o Tractatus. Se admitirmos, como queria Wittgenstein, que a filosofia não evolui por acúmulo de resultados, mas por aprofundamento das questões, então as fases por que passou o pensamento do filósofo não devem ser interpretadas como separadas entre si, mas como uma continuidade conceitual profunda. Não há, na verdade, temas novos que tenham sido introduzidos, como, p. ex., o da certeza e sua ligação com a ação, o do conhecimento por contraste com a certeza, o da certeza como uma atitude face às formas de vida, o da dúvida como erro categotrial decorrente da falta de atenção ao emprego da linguagem, o tema dos fundamentos sem fundamentos do conhecimento e de sua relação com a ação — ou a rocha duta onde a pá entorta — assim como os temas da crença nas verdades do senso comum, e o da crença religiosa (cf. Newman, Sobre a Certeza $1), não como pontos de partida absolutos por não poderem ser provados, mas como atitudes no interior de formas de vida.

Estes temas, que ressurgem sob novas roupagens no texto derradeiro, não formam um conjunto temático como poderia dar a supor a edição do livro. Fazem parte, isto sim, de um fluxo em que estão presentes reflexões sobre temas psicológicos, sobre cores e sobre a matemática. Interpretar o texto como a revelação de uma nova vertente naturalista e epistemológica no pensamento de Wittgenstein revela, acreditamos, a desconsideração da evolução dos movimentos conceituais e de sua ligação interna de sentido. Uma questão semelhante à de saber a partir de qual grão de areia temos um monte de ateia — é a que se colocam vários intérpretes do filósofo, de saber a partir de que momento surge uma nova fase em seu pensamento — uma fase de ruptura com o que veio anteriormente e que abriria novos horizontes até então ausentes, para a interpretação de suas ideias.

Com o presente volume, conseguimos apresentar um panorama sucinto de algumas interpretações atuais de Wittgenstein, o que permitiria, quiçá, fornecer uma ideia mais clara do que, de maneira polêmica, afirmamos acima convictamente.

Talvez em um eventual próximo colóquio, poderíamos vir a testar melhor nossas hipóteses. Mas, o futuro é sempre imprevisível!”

 

Arley R. Moreno

 

Volume 77 – 2016

ISBN 978-85-86497-28-5

 

Índice para catálogo sistemático:

  1. Wittgenstein Ludwig, 1889-1951 193
  2. Filosofia austríaca 93
  3. Teoria do conhecimento 121
  4. Ceticismo 149.73

 

OBS. Temos o prazer de apresentar neste volume o material selecionado do Colóquio Wittgenstein, em sua décima versão nacional e sétima internacional. O tema proposto foi “Wittgenstein – Conhecimento e Ceticismo”, realizado durante os dias 14 a 16 de outubro de 2016 no IFCH/UNICAMP, com o apoio do Departamento e do Programa de Filosofia.

References

Coleção CLE - Volume 77

Published

June 7, 2016

How to Cite

R. MORENO, Arley. Wittgenstein: conhecimento e ceticismo. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP),2016. v. Coleção CLE - Volume 77 Disponível em: https://www.cle.unicamp.br/ebooks/index.php/publicacoes/catalog/book/65. Acesso em: 17 jun. 2026.