Filosofia Da Mente E Inteligência Artificial
Synopsis
Filosofia da mente e inteligência artificial (digital)
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“Explicar o que é Filosofia da Mente e quais são suas tendências atuais não é tarefa fácil, sobretudo se levarmos em conta que a Filosofia da Mente não é propriamente uma disciplina, mas, primordialmente, um estilo de filosofar que ganhou contornos mais nítidos nas últimas décadas, tendo como temas questões filosóficas tradicionais: o problema das relações mente-corpo, o problema da natureza das representações mentais, o problema da identidade pessoal, apenas para citar algumas.
Tudo se passa como se estas questões fossem momentaneamente redescobertas e como se as críticas à boa e velha metafísica — que alguns quiseram sepultar precipitadamente — fossem momentaneamente esquecidas. A Filosofia da Mente reinventa problemas metafísicos e os rediscute introduzindo um horizonte filosófico novo, muito diferente daquele que vigorava no século passado e que desencorajava qualquer tentativa de resposta a essas questões fundamentais.
Se tivermos de situar o início da Filosofia da Mente melhor seria fazê-lo com a publicação do livro de Gilbert Ryle, The Concept of Mind, em 1949. Este trabalho — ainda hoje considerado paradigmático para todos aqueles que desejam se aventurar nesta área — marcou todo um período na história da Filosofia da Mente. Ryle ocupou-se do problema tradicional das relações mente-corpo (mind-body problem) ao mesmo tempo em que procurou demonstrar que este problema não poderia receber uma solução satisfatória por estar fundamentalmente mal formulado. Tentativas de solucioná-lo desembocaram sempre em posições reducionistas - sejam elas dualistas, materialistas ou mesmo interacionistas.
O erro básico de todas estas posições residiria no fato de que a própria formulação do problema nada mais seria do que um equívoco linguístico. Uma análise cuidadosa da linguagem de que nos utilizamos para nos referir a estados mentais e outros fenômenos internos seria suficiente para dissipar toda confusão e o próprio problema das relações mente-corpo desaparecerta, ficando assim evidente que este seria um típico pseudo-problema.
O trabalho de Ryle tornou-se o ponto de referência de toda a filosofia da mente — uma influência que durou por mais de uma década. À especulação acerca da natureza dos fenômenos mentais deveria ser substituída por um método de análise da linguagem, um método que mais tarde ficaria conhecido e consagrado sob o nome de análise conceitual. A estratégia básica da análise conceitual consistia numa avaliação da semântica dos termos utilizados para falarmos de fenômenos mentais — sejam eles sensações, pensamentos ou imagens. Para dissipar os problemas da Filosofia da Mente e identificar os pseudo-problemas seria preciso, preliminarmente, disciplinar a maneira pela qual nos referimos a esses fenômenos. Com isto não se esperava resolver os problemas tradicionais da Filosofia da Mente mas simplesmente dissolvê-los. Neste sentido o método empregado pela análise conceitual não visava nenhuma solução a ser atingida: o seu próprio emprego já significava a resolução de todos os problemas da Filosofia da Mente.
Infelizmente nem todos os problemas da Filosofia da Mente poderiam ser resolvidos através da análise linguística dos termos cotidianos utilizados para nos referirmos a fenômenos mentais. À aplicação continuada deste tipo de método acabou por frustrar seus defensores: pressupostos metafísicos acabaram por se evidenciar e logo se percebeu seus compromissos tácitos com uma espécie de behaviorismo lógico que dissipava sua pretensa neutralidade e o devolveria para a esfera dos reducionismos que tanto se desejava criticar. À análise linguístico-conceitual dos fenômenos mentais revelava suas limitações e logo seria substituída por outras perspectivas filosóficas.
O segundo grande movimento da Filosofia da Mente (que ocupou a década de 60 e o início dos anos 70) seria marcado por uma tendência bastante explícita: o materialismo. Este movimento surgiu como uma forte reação à análise linguístico-conceitual proposta por Ryle. E uma vez que se abandonava a crítica da linguagem cotidiana procurava-se também abandonar definitivamentequalquer método filosófico ou qualquer tipo de especulação. À solução para os problemas da Filosofia da Mente deveria ser procurada no domínio de teorias psicológicas empiricamente fundamentadas ou até mesmo na Neurofisiologia. Entretanto, estas teorias não podiam ser pura e simplesmente incorporadas pela Filosofia da Mente: elas eram e deveriam ser suscetíveis de uma crítica filosófica. Foi esta tendência que levou a uma aproximação entre Filosofia da Mente e Filosofia da Ciência — uma aproximação que se mantém até hoje. Achar uma compatibilidade ou uma comensurabilidade entre teorias psicológicas e teorias neurofisiológicas como se buscava é ainda hoje um problema fundamental para a Filosofia da Mente e ao mesmo tempo um problema da Filosofia da Ciência. Foi a partir desta aproximação que a Filosofia da Mente se expandiu como área de estudo, passando a interessar-se por todo e qualquer tipo de estudo empírico de fenômenos mentais, seja este obtido através da Neurofisiologia, da Inteligência Artificial ou da Psicolingúística.
A mudança fundamental que assistimos nesse período foi um crescente interesse pelos resultados empíricos das diferentes disciplinas que tratam de fenômenos mentais — resultados que deveriam não apenas ser integrados a especulação em Filosofia da Mente mas também servir como seu ponto de partida. O comércio entre ciência e filosofia era assim restabelecido e isto levou a Filosofia da Mente a assumir uma posição naturalista, ou seja, a sustentar que a epistemologia e, consequentemente, a própria Filosofia da Mente deveriam ser vistas como um capítulo da Psicologia.
Mas este movimento consolidou-se efetivamente através da chamada teoria da identidade mente-cérebro, cujo principal pressuposto metafísico era o materialismo, ou seja, a proposição de que mente e cérebro são uma única e mesma coisa. Assim sendo, todos os fenômenos mentais, incluindo o conteúdo de nossos estados internos (dores, pensamentos, sonhos, desejos etc) nada mais seriam do que processos ou estados de nossos cérebros.
Os primeiros artigos sobre a teoria da identidade mentecérebro — escritos no início da década de 60 por filósofos como UVT. Place, J.J. Smart e D. Armstrong — tinham um estilo marcadamente panfletário. O que se desejava era uma total refutação do dualismo, ao mesmo tempo em que se lançavam as bases conceituais para uma ciência da mente nos moldes do fisicalismo.
Os argumentos anti-dualistas deste grupo de filósofos seguiam uma direção bastante parecida: tratava-se de mostrar que se supomos a existência de eventos não-físicos no cérebro (ou na “mente”) estes eventos não têm consequência alguma sobre o comportamento. Nossas ações não poderiam ser explicadas como decorrência de nossas operações mentais ou mesmo de nossas intenções, crenças e desejos — uma posição particularmente contraintuitiva e difícil de sustentar.
Os partidários da teoria da identidade defendiam a idéia de que esta deveria ser uma teoria empírica, ou seja, sua ontologia só poderia incluir entidades validadas pela Neurofisiologia ou por outras ciências empíricas. Isto significava dizer não apenas que eventos mentais ocorrem paralelamente a eventos cerebrais ou que os primeiros são causados pelos últimos, o que estes teóricos propunham era algo muito mais radical, ou seja, que eventos mentais são eventos cerebrais.
Este tipo de afirmação radical não poderia deixar de gerar muitas controvérsias, algumas das quais particularmente polêmicas. Uma forte objeção à teoria da identidade emergiu da aplicação da chamada Lei de Leibniz. É esta lei que torna a identidade uma relação lógica particularmente forte, implicando em muito mais do que uma simples similaridade ou uma ocorrência simultânea de eventos mentais e eventos cerebrais. Com efeito, a Lei de Leibniz estabelece que se "x” é idêntico a “y” isto implica que todo e qualquer predicado que possa ser atribuído a "x” deve igualmente poder ser atribuído a "y”. Para exprimir esta lei de forma trivial podemos afirmar que ela nos diz que se a estados cerebrais atribuímos as propriedades de "ser permeável" e “conduzir eletricidade”, estas mesmas propriedades deveriam ser atribuídas aos estados mentais. Mas é claro que não faz sentido afirmar acerca de pensamentos que eles "são permeáveis" ou que "são condutores de ele tricidade”, o que tornava a aplicação da Lei de Leibniz particularmente problemática para os defensores da teoria da identidade.
Certamente esta não era a única objeção que enfrentavam os partidários da teoria da identidade. Contudo, mesmo que a teoria da identidade não tenha sido bem sucedida na sua proposta de tratar estados mentais como estados cerebrais é preciso notar que isto não diminuiu sua importância histórica para a rediscussão do problema das relações mente-cérebro — o qual ainda permanece sendo uma preocupação fundamental dos filósofos da mente. A elucidação da relação lógica de identidade que supostamente não apresentaria dificuldades passou a constituir um objeto de estudo e de indagação metafísica após a formulação da teoria da identidade e do seu enunciado central, qual seja, o de que estados mentais são idênticos a estados cerebrais. Neste sentido, as reflexões de S. Kripke sobre a relação de identidade, apesar de concluírem pela refutação do materialismo, constituem talvez o mais importante legado deste movimento filosófico dos anos 60 e início dos anos 70.
Mas a teoria da identidade mente-cérebro não constituiu a única ramificação naturalista da Filosofia da Mente no século XX. A partir dos anos 50 a especulação filosófica passa a ser influenciada pela idéia de que o computador constitui o melhor modelo do funcionamento mental humano. A investigação em Filosofia da Mente começava a se mesclar com os desenvolvimentos da Psicologia Cognitiva e com as primeiras realizações da Inteligência Artificial, uma disciplina novíssima que viria a se consolidar no início dos anos 60.
À Inteligência Artificial rapidamente se constituiu num corpo de conhecimentos interdisciplinares, recebendo contribuições da Psicologia, da Ciência da Computação, da Linguística e da Filosofia. Sua finalidade era estudar programas computacionais cuja aplicação prática consistia na construção de sistemas que pudessem executar um conjunto crescente de atividades para as quais se requeria inteligência. O estudo e a modelagem de atividades cognitivas humanas e a explicação dos processos mentais responsáveis pelo comportamento inteligente passou a ser o centro dos interesses destes pesquisadores, empenhados em explicitar alguns aspectos da nossa vida mental através da construção de modelos computacionais que apresentassem um elevado grau de realidade psicológica.
O interesse dos filósofos da mente por esta nova área de estudos não se resumia à simulação de atividades mentais humanas. Tratava-se também de avaliar os pressupostos envolvidos nos modelos computacionais: se um computador ou um robot puder simular nossas atividades mentais e se essas máquinas nada mais forem do que um determinado arranjo material (de válvulas ou “chips”), então podemos concluir que para explicar o funcionamento da mente humana não precisamos postular a existência de uma outra substância mental ou espiritual que possivelmente seria completamente distinta da matéria. As implicações filosóficas da realização deste projeto seriam imediatas: o dualismo deveria ser descartado, dando lugar ao fisicalismo que surgiria da certeza de que nossa atividade mental não seria nada além de algo que resulta da complexidade do sistema nervoso dos organismos superiores. Um entrecruzamento entre investigação filosófica e pesquisa em Inteligência Artificial já se configurava desde as primeiras realizações desta nova disciplina. A investigação em Inteligência Artificial concentrou-se então na tentativa de mostrar que muitas capacidades que anteriormente se consideravam exclusivas dos seres humanos — como por exemplo jogar xadrez, demonstrar teoremas em Lógica e em Matemática — poderiam ser desempenhadas por programas computacionais.
Na década de 60 um grupo de pesquisadores liderados por A. Newell e H. Simon organizaram um projeto de estudos que ficou sendo conhecido pelo nome de "Projeto de Simulação Cognitiva”. Uma das preocupações deste grupo era a simulação da atividade de resolução humana de problemas através de modelos computacionais. Newell e Simon desenvolveram um programa para resolução de problemas denominado GPS, o qual possuia um espectro bem amplo de utilizações. Uma delas - a que se tornou certamente a mais famosa — consistiu na sua capacidade de demonstrar teoremas do Cálculo Proposicional. Com base nas declarações verbais de indivíduos resolvendo problemas do Cálculo Proposicional, Newell e Simon estruturaram seu programa. Eles pretendiam que o GPS constituísse uma autêntica simulação dos processos mentais humanos, ou seja, afirmavam que o programa por eles desenvolvido empregava estratégias semelhantes àquelas utilizadas por indivíduos humanos. Em outras palavras, o que Newell e Simon pareciam querer sustentar era uma similaridade entre os processos subjacentes às atividades desempenhadas pelo programa e aquelas desempenhadas pelos indivíduos humanos.
As pretensões realistas no que diz respeito às simulações cognitivas tais como eram realizadas por Newell e Simon passaram a ser questionadas sob várias perspectivas. O principal problema enfrentado pelos teóricos da simulação cognitiva dizia respeito à possibilidade de se afirmar que realmente duplicamos não apenas comportamentos manifestos mas também os processos a eles subjacentes. Novamente questões filosóficas e os resultados das pesquisas em Inteligência Artificial se mesclavam, desta vez envolvendo uma questão epistemológica similar âquela da adequação de teorias diversas a um mesmo conjunto de dados empíricos selecionados para confirmá-las. Ou seja, assim como é possível formular teorias concorrentes igualmente bem confirmadas para explicar um mesmo conjunto de fenômenos empíricos, argumentava-se que também seria possível realizar as mesmas tarefas utilizando-se programas computacionais diferentes. E como seria possível assegurar que um deles constituiria efetivamente uma simulação do modo como seres humanos realizam tais tarefas? Uma máquina de calcular e um ser humano podem fazer operações aritméticas, mas certamente seria muito difícil sustentar que uma calculadora constitui uma simulação do modo como seres humanos realizam somas ou subtrações. Uma simples comparação entre o desempenho de uma máquina e o de um ser humano é insuficiente para afirmar que um determinado programa computacional constitui simulação cognitiva. E o que dizer no caso de termos dois programas computacionais inteiramente distintos mas que podem realizar a mesma tarefa com igual eficiência? E como poderíamos estabelecer uma comparação se pouco ou nada sabemos acerca do modo como seres humanos realizam operações mentais? À crença na existência de uma isomorfia entre operações mentais realizadas por organismos e aquelas efetuadas por programas computacionais começava a ser questionada. E mesmo que existisse tal isomorfia, pairava a dúvida de que talvez ela nunca poderia ser efetivamente comprovada.
Tal dificuldade logo se manifestou no caso do GPS quando o matemático Wang montou um programa que era igualmente capaz de efetuar demonstrações no Cálculo Proposicional utilizando-se, entretanto, de estratégias e processos distintos. Por outro lado, passou-se igualmente a questionar se simulações poderiam ser montadas com base unicamente nas declarações verbais de indivíduos durante a tarefa de resolução de problemas como o fizeram Newell e Simon. Proceder assim implicava em estipular a existência de uma similaridade entre linguagem e processos mentais subjacentes, o que é igualmente questionável. Será que existe essa similaridade entre a atividade mental dos sujeitos e o seu comportamento linguístico manifesto? Conquanto possamos admitir que a linguagem é constitutiva (e essencial) nos nossos processos mentais, isto não permite descartar a hipótese de que processos lingúísticos sejam apenas manifestações de operações mais profundas. Este último ponto de vista impede a afirmação segundo a qual à linguagem natural poderia ser identificada com o pensamento como pareciam pressupor — pelo menos num primeiro momento — Newell e Simon.
Esta restrição das pretensões realistas com relação às simulações não minimizou a importância da Inteligência Artificial, seja para a Psicologia, seja para a Filosofia. Hoje em dia não falamos mais em simulações mas em modelos para aspectos específicos de uma ou outra atividade mental sob estudo. O processo de elaboração desses modelos é fundamental na pesquisa acerca da natureza das atividades cognitivas humanas. Ao tentar criar equivalentes mecânicos de processos cognitivos o investigador da Inteligência Artificial é obrigado a elaborar programas e, nesta atividade, ele tem de estabelecer, com clareza, cada etapa a ser percorrida pelo computador. Nesta tarefa ele é simultaneamente obrigado a uma reflexão mais detalhada acerca de suas hipóteses sobre a estrutura e o funcionamento das atividades cognitivas humanas. Tudo se passa como se montar programas equivalesse a esquematizar diagramas no quadro-negro numa aula de geometria. Teoricamente eles podem ser considerados irrelevantes, mas por outro lado, eles forçam uma certa disciplina da imaginação. À investigação em Inteligência Artificial constantemente se entrecruza com a investigação filosófica na medida em que construir programas significa muitas vêzes indagar pelas condições de possibilidade de certos desempenhos cognitivos presentes na linguagem natural, na percepção etc.
Máquinas com comportamentos parecidos com os dos seres humanos participarão cada vez mais de nossas vidas. Os filósofos da mente mais ousados até já investigam o sentido de se atribuir direitos civis a estas máquinas na medida em que elas se tornarem réplicas quase perfeitas de seres humanos! Afinal, pode uma máquina pensar? Encontrar uma resposta para esta questão, formulada há algumas décadas atrás pelos primeiros teóricos da Inteligência Artificial torna-se uma tarefa que exige cada vez mais a participação dos filósofos. Tentar respondê-la significa abordar uma questão ainda mais primordial que percorre quase toda História da Filosofia: afinal, o que é o pensamento? Será ele exclusividade dos seres humanos — aquela característica distintiva que nos coloca na posição confortável de ser o centro da criação e do universo? Teria Descartes agido de maneira precipitada quando, ao percorrer os argumentos céticos, concluiu que o pensamento nos remete inevitavelmente à existência de uma alma imaterial que seria a única fonte possível de todo pensar? Não seria a hipótese de que um mecanismo pode pensar um forte argumento para abalar as convicções metafísicas inspiradas pelo Cogito cartesiano?
Sugerimos no nosso breve histórico das realizações da Inteligência Artificial que equiparar uma máquina com um ser humano, afirmar que ambos podem pensar significa algo mais do que simplesmente estabelecer uma comparação entre seus comportamentos. Se máquinas realizam tarefas que antes considerávamos exclusividade dos seres humanos isto não quer dizer que elas possam pensar. Seria preciso que elas realizassem essas tarefas e ao mesmo tempo pudessem saber o que estão fazendo, Em outras palavras, elas precisariam desenvolver alguma coisa parecida com a consciência — só assim poderíamos iniciar esta comparação. Mas a consciência exige uma capacidade ainda mais primitiva: a de poder perceber e representar o mundo, condição necessária para que um organismo possa elaborar uma versão daquilo que o rodeia e elaborar uma subjetividade própria que dê significado para seus comportamentos. Nos últimos anos esta questão tem ocupado psicólogos, filósofos e pesquisadores da Inteligência Artificial. Como pode um organismo construir suas representações internas? Poderá uma máquina representar o mundo que a rodeia e gerar algo similar ao significado de nossos pensamentos ou de nossa linguagem?
O conceito de representação interna tem se mostrado fundamental na explicação do comportamento para várias escolas psicológicas. Para os filósofos, é o estudo da natureza das representações internas que permitirá explicar como o conhecimento é possível, na medida em que estas funcionam como uma espécie de modelo interno do mundo. Esta investigação, entretanto, torna-se decisiva para o pesquisador da Inteligência Artificial que depende de uma teoria filosófica da natureza da representação, a partir da qual seja possível indagar se sistemas artificiais podem representar o mundo e vir a desenvolver algo parecido com uma vida mental. De uma resposta positiva a esta indagação preliminar depende a possibilidade de validar a Inteligência Artificial como projeto teórico e científico.
Tentar desenvolver os fundamentos filosóficos de uma teoria da representação mental é a motivação dos ensaios que reunimos neste volume. O primeiro ensaio serve como uma espécie de guia, que remete aos demais, procurando delimitar alguns contornos históricos da questão que nos ocupa, qual seja, a da natureza da representação mental e da possibilidade de sua simulação através de sistemas artificiais. O segundo ensaio, "À Máquina de Enxergar”, discute a percepção enquanto forma básica de representação do mundo exterior. Nele investigamos a especificidade da relação perceptual que se estabelece entre organismo e mundo para depois discutir a possibilidade de se replicar a percepção através de equivalentes mecânicos. Nas suas seções finais introduzimos os primeiros elementos para a formulação de uma teoria biológica e evolucionária da representação mental que será desenvolvida no terceiro ensaio, intitulado "Auto-locomoção e imtencionalidade”. Este terceiro ensaio constitui o núcleo de nosso trabalho, qual seja, uma teoria de inspiração naturalista onde propomos uma abordagem biológica da representação mental através de uma articulação entre Inteligência Artificial e teoria da evolução.
À preocupação com as questões relativas à evolução serve de motivação para o quarto ensaio, "Inteligência Artificial e Caça aos Andróides”. Nele indagamos se uma teoria da representação bascada no conceito de seleção natural e evolução das espécies pode conviver com as propostas da Inteligência Artificial de criar sistemas que, mesmo sem um passado evolucionário, possam vir a desenvolver habilidades cognitivas que a natureza levou milhares de anos para aperfeiçoar. Esta discussão tornou-se necessária na medida em que percebemos que os modelos da Inteligência Artificial poderiam sucumbir a tentações anti-científicas do criacionismo ao propor a geração instantânea de sistemas dotados de uma possível capacidade de representação do mundo exterior.
Finalmente, no último ensaio, retomamos a questão mais tradicional da Filosofia da Mente, qual seja, o problema das relações mente-cérebro e procuramos investigar em que medida os modelos da Inteligência Artificial podem nos auxiliar a esclarecêlo. Procuramos oferecer uma alternativa à teoria da identidade mente-cérebro sem postular a existência de entidades metafísicas que forçar-nos-iam a adoção do dualismo.
Se estes ensaios formam uma unidade ou uma teoria completa é uma questão que não podemos responder, Muitas vezes ao escrevê-los, tivemos a sensação de estarmos nos aproximando de uma imensa cidade, que poderíamos descortinar de várias perspectivas, que contudo não poderiam ser integradas a ponto de compor um mapa. A falta de uma unidade geral teve a vantagem de poder preservar a independência destes ensaios, que podem ser lidos separadamente, embora sob pena de incorrermos em inevitáveis repetições de algumas passagens, facilmente reconhecíveis.”
João De Fernandes Teixeira
VOLUME 17 – 1996
ISSN: 0103-3147
Primeira Edição, 1996
Indice para catálogo sistemático:
- Inteligência artificial 001.535
- Mente - Filosofia 128.2
OBS. O aparecimento da Ciência Cognitiva e da Inteligência Artificial, nas últimas décadas, tem trazido uma constante inquietação para os filósofos da mente que têm questionado, incessantemente, a possibilidade de sistemas artificiais replicarem a vida mental humana. Neste livro, o autor aborda um dos aspectos centrais deste problema, investigando a natureza das representações mentais. Dirigida não apenas para um público de especialistas, esta obra é de interesse para filósofos, psicólogos, cientistas da computação e áreas afins.
References