Uranografia ou A Descrição do Céu de Adriaan Van Roomen

Authors

Zaqueu Vieira Oliveira

Synopsis

Uranografia ou A descrição do Céu – de Adriaan van Roomen (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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“A obra que o  leitor  tem  agora  em  mãos  é  o  testemunho  de  um  trabalho contínuo  de  pesquisa.  Zaqueu Oliveira  iniciou  seu  estudo  da  biografia  e  da  obra  de Adriano  Romano  em  2007,  em  um  projeto  de  iniciação  científica,  enquanto  era estudante  de  graduação  da  Escola  de  Artes,  Ciências  e  Humanidades  da  Universidade  de São  Paulo.  Esta  edição  da  Uranografia  representa  os  frutos  de  seu  mestrado,  realizado na  Universidade  Estadual  Paulista,  e  vem  a  lume  no  exato  momento  em  que  Zaqueu Oliveira  conclui  seu  doutorado,  na  mesma  universidade,  ainda  abordando  esse  mesmo Adriano  Romano.  Iniciação científica,  mestrado  e  doutorado  constituíram  assim  apenas três  fases,  reguladas  pela  legislação  acadêmica,  de  um  projeto  maior,  um  verdadeiro programa  de  pesquisa  que,  focando  um  personagem  específico,  foi  capaz  de  trazer  à tona  toda  uma  dimensão  da  história  da  matemática  do  começo  da  Modernidade.

É de  se  notar  também  que  esse  esforço  de  entendimento  tenha  se  centrado em  um  nome  que,  se  olhado  ingenuamente,  não  deveria  merecer  tanto.

O  que  há  de  interessante  em  Adriano  Romano  que  o  habilita  a  ser  estudado dessa  forma,  por  tão  longo  tempo?  Não  seria  um  engano  dispensar  tanta  energia  a  um matemático  que  nunca  estabeleceu  uma  nova  teoria,  que  nunca  demonstrou  um  teorema central  e  que,  se  veio  a  integrar  a  galeria  canônica  de  matemáticos,  foi  apenas  por  um feito  exótico,  o  de  ter  calculado  x  com  16  dígitos?

Pois  é  justamente  essa  “fraqueza”  de  Adriano  Romano,  essa  deficiência  de fama,  quase  uma  vocação  para  o  segundo  plano,  que  o  torna  interessantíssimo  para  uma abordagem  contemporânea  da  história  da  matemática.  Ocorre  que  desde  a  década  de 1960,  há  entre  historiadores  das  ciências  e,  crescentemente,  da  matemática,  a  consciência  de  que  a  lista  canônica  de  grandes  cientistas  e  de  grandes  descobridores  e inventores  é  uma  construção  política  e  não  uma  decorrência  natural  dos  “fatos  históricos”.  Essa  lista  canônica  não  pode  ser  entendida  sem  uma  crítica  à  uma  certa  historiografia  de  apologia  da  ciência  e  do  gênio  isolado.

Pois  é  contra  a  visão  do  gênio  isolado  que  Zaqueu  Oliveira  se  coloca. Adriano  Romano,  inteligente  e  capaz  o  quanto  fosse,  seguramente  não  foi  considerado gênio.  Não  era  tampouco  isolado.  Ao  contrário,  através  de  uma  contínua  atividade epistolar,  Adriano  Romano  comunicava-se  com  vários  pensadores  de  seu  momento, mantendo-se  a  par  dos  projetos  de  pesquisa  e  estudos  de  seus  colegas,  bem  como  das publicações  no  nascente,  e  já  intenso,  mercado  livreiro.

Adriano  Romano  permanece  sendo  um  homem  de  seu  tempo.  É  claro  que todos  somos  pessoas  do  nosso  tempo,  mas  o  que  o  diferencia,  o  que  o  torna  mais  do  seu tempo  é  o  fato  de  que  a  historiografia  não  tentou  transformá-lo  em  algo  a  mais,  em  um nome  famoso  na  galeria  de  inventores  da  matemática  ou,  como  se  costuma  dizer  em  tais contextos,  em  “um  homem  à  frente  de  seu  tempo”.  Não  mesmo:  Adriano  Romano continua  a  ser  um  homem  de  seu  tempo,  e  Zaqueu  Oliveira  deixa  isso  bem  claro.

Nem  gênio,  nem  isolado,  nem  à  frente  de  seu  tempo.  Adriano  Romano encarna  de  certo  modo  o  momento  em  que  vive,  o  que  não  quer  dizer,  contudo,  que  ele seja  um  típico  homem  do  seu  tempo,  em  qualquer  sentido  estatístico  do  termo  “típico”. Ele  encarna  seu  momento  no  sentido  que  é  através  de  sua  vida  e  sua  obra  que  podemos acessar  problemáticas  próprias  da  vida  erudita  daquele  instante  da  história.  É  esta  outra forma  de  dizer  por  que  ele  é  um  objeto  de  pesquisa  muito  proveitoso.

Há  um  último  aspecto  que  merece  atenção  para  uma  reflexão  historio-gráfica,  que  é  o  das  divisões  disciplinares.  Adriano  Romano  era  matemático,  astrônomo e  médico,  como  atestam  seus  escritos.  No  seu  tempo,  as  discussões  sobre  as  divisões  do conhecimento  eram  intensas,  discussões  nas  quais  ele  também  se  engajou,  como  na Universae  Mathesis  Idea  (1602)  e  na  Mathesis  Polemica  (1605),  que  Zaqueu  Oliveira acaba  de  analisar  em  seu  doutorado.  Cabe  ao  leitor  agora  refletir  sobre  o  lugar  da Uranografia  em  uma  classificação  dos  saberes.  Trata-se  de  uma  obra  de  astronomia, produzida  em  um  momento  em  que  a  astronomia  é  ainda  pensada  como  parte  das disciplinas  matemáticas  do  quadrivium.  Do  que  se  deduz  que  a  Uranografia  seria também,  para  Romano  e  seus  contemporâneos,  uma  obra  de  matemática.  Não  nos  cabe entrar  na  discussão,  mas  sim  entender  que  as  áreas  que  uma  disciplina  abrange  estão continuamente  sujeitas  a  renegociações.  Como  consequência,  o  trabalho  de  Zaqueu Oliveira  também  nos  ensina  a  conviver  com  fronteiras  flexíveis  para  as  divisões  do conhecimento.

Em  suma,  este  estudo  sobre  Adriano  Romano  e  a  edição  de  uma  obra  sua terão  interesse  para  todos  aqueles  que  anseiam  por  conhecer  mais  das  ciências  e  da matemática  no  começo  da  Modernidade,  bem  como  dos  modos  de  abordar  essas disciplinas  no  plano  historiográfico.  Penso  em  educadores,  historiadores,  filósofos  e mesmo  os  próprios  praticantes  de  hoje  da  matemática  e  da  astronomia.  A  todos,  uma boa  leitura.”

 

ZAQUEU VIEIRA OLIVEIRA

 

VOLUME 69 – 2015

ISSN: 0103-3247

 

Índice para catálogo sistemático

  1. Astronomia-História 520.9
  2. Matemática-História 510.9
  3. Ciência-História 509

 

OBS. Trata-se de uma obra de astronomia, produzida em um momento em que a astronomia é ainda pensada como parte das disciplinas do quadrivium. Do que se deduz que a Uranografia seria também, para Romano e seus contemporâneos, uma obra de matemática. Não nos cabe entrar na discussão, mas com entender que as áreas que uma disciplina abrange estão continuamente sujeitas a renegociações.

 

 

References

Coleção CLE - Volume 69

Published

February 5, 2015

How to Cite

VIEIRA OLIVEIRA, Zaqueu. Uranografia ou A Descrição do Céu de Adriaan Van Roomen. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP),2015. v. Coleção CLE - Volume 69 Disponível em: https://www.cle.unicamp.br/ebooks/index.php/publicacoes/catalog/book/87. Acesso em: 17 jun. 2026.