WITTGENSTEIN: Aspectos Pragmáticos
Synopsis
Wittgenstein: aspectos pragmáticos (digital)
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“Este volume reúne uma série de textos selecionados dentre os apresentados no IV Colóquio Nacional / I Colóquio Internacional Wittgenstein.
O tema geral sugerido foi a presença de aspectos pragmáticos no pensamento do filósofo. Deixou-se, está claro, à livre escolha dos pesquisadores convidados ao colóquio os aspectos a serem abordados. Daí, a diversidade de enfoques presentes neste livro, enfoques que vão desde reflexões sobre temas diretamente ligados ao pensamento de Wittgenstein, passam por temas que permitem comparações com outros pensadores na mesma área ou em áreas afins, até enfoques de temas abordados pelo filósofo na qualidade de exemplos esclarecedores e/ou, como ele próprio afirma, exemplos analógicos permitindo estabelecer ligações intermediárias e internas entre as diferentes situações em que são aplicadas palavras de acordo e em conformidade com regras — os jogos de linguagem.
O progressivo surgimento de temas de natureza pragmática no pensamento de Wittgenstein, após o Tractatus deve ser compreendido em relação com a herança fregeana, ou melhor, com tudo o que Frege havia procurado eliminar cuidadosamente de seu projeto ideográfico que viesse a exceder o que caracterizou como sendo conteúdo proposicional, a saber, tudo e somente o que pode ser asserido como verdadeiro ou como falso. Ou ainda, os temas pragmáticos que surgem e são assimilados à reflexão filosófica de Wittgenstein a respeito da significação, a partir do final da década de 20, poderiam ser também resumidos através da caracterização clássica que lhe ofereceram Morris e Carnap, a saber, além dos elementos propriamente lingiisticos, os interlocutores e as situações de interlocução lingiiística. A idéia de pragmática em Wittgenstein nada tem em comum com o pragmatismo americano de Dewey e James — embora pudesse ser menos avessa ao “pragmaticismo” de Peirce por apresentar uma dimensão constitutiva da significação que passa ao largo do utilitarismo pragmatista dos primeiros.
Afasta-se também de concepções pragmáticas de uma comunidade discursiva e intersubjetiva, como de uma comunidade que pudesse apresentar as versões mais adequadas para os mesmos fatos naturais, aquelas versões que concentrassem o maior grau de liberdade e de eficácia na solução de problemas vitais para o homem. Pelo contrário, ao invés de um naturalismo utilitarista e sociologista, o campo pragmático, para Wittgenstein — aquele campo de regras gramaticais envolvendo palavras, ações e interlocutores, ou melhor, as instituições sociais que são os jogos de linguagem — é o lugar onde vai localizar tudo o que é metafísico, as questões de fundamento e de essência. Ao afirmar, em um de seus últimos textos, que algo não é verdadeiro por ser útil, mas é útil por ser verdadeiro, demarca-se do utilitarismo pragmatista sob qualquer uma das diversas formas que este poderá revestir. A reflexão filosófica de Wittgenstein após o Tractatus prossegue sendo a busca pela essência da significação, das relações entre pensamento, linguagem e mundo, reflexão a respeito de questões metafísicas e não de questões científicas, questões sobre o fundamento do conhecimento e do pensamento através da linguagem.
Assim é que a concepção de um domínio de elementos pragmáticos — no sentido acima indicado, conforme as caracterizações oferecidas por Morris e Carnap — mas não empíricos, com função constitutiva dos conteúdos do pensamento através da linguagem — contrariamente, agora, às mesmas caracterizações de Morris e Carnap — permite uma vasta abertura para diversas e ricas aproximações e distinções com outras áreas do conhecimento — tal como indicamos ser o caso dos textos presentes nesta coletânea de estudos. Estas são as perspectivas pragmáticas abertas pelo pensamento de Wittgenstein após o período dominado pelo Tractatus.
O estudo da professora Antonia Soulez gira em torno da idéia expressa por Wittgenstein, já no Tractatus, da autonomia da música relati- vamente ao mundo extra-musical e de uma sua afirmação, feita poste- riormente, de que uma simples frase musical conteria a totalidade de um mundo. Esboça-se, assim, a questão mais geral da concepção de autonomia no pensamento do filósofo, a saber, a autonomia da lógica e a da gramática dos usos das palavras, ou, ainda, a passagem de uma autonomia estritamente formal para uma autonomia pervadida por elementos pragmáticos. O caso da música presta-se, sem dúvida, a focalizar de maneira privilegiada a relação entre a compreensão de um sentido musical e sua realização pela execução do intérprete, de forma análoga à passagem da compreensão de uma ordem à sua execução — e, de maneira mais ampla, à passagem da compreensão da significação à realização da ação.
O estudo de Arley R.Moreno focaliza as relações entre pensamento e realidade durante a trajetória filosófica de Wittgenstein, insistindo, sobretudo, nas mudanças que sofreu a idéia de autonomia da lógica e, por consegiiência, na profunda exploração realizada, após o Tractatus, do domínio de elementos pragmáticos, excluídos dessa obra sob a inspiração de Frege, aprofundamento, na verdade, da concepção de autonomia aplicada, então, à gramática dos usos das palavras.
Em seu estudo, a professora Cristiane M. C. Gottschalk focaliza três concepções de significado na matemática que, confluindo em um mesmo ponto de apoio lingiiístico, afastam-se, todavia, quanto às respectivas atribuições do papel desempenhado pela linguagem na constituição dos objetos matemáticos. São analisados três exemplos a partir de diferentes pontos de vista, sociológico, formalista e gramatical — respectivamente, de Bloor, Granger e Wittgenstein — a saber, os casos dos paradoxos do infinito, o da lógica da comunidade dos Azande e o do teorema de Euler. O estudo acentua a importância da dimensão pragmática, presente na posição de Wittgenstein, ao estabelecer um campo intermediário entre o empírico e o transcendental puro e evitar, com isto, dificuldades tradicionais encontradas pela filosofia da matemática em interpretar o sentido dos objetos com que trabalha.
O professor Horácio L. Martinez desenvolve, em seu estudo, uma análise dos conceitos de Weltanschauung e Weltbild com respeito à idéia de pragmatismo. De fato, em uma de suas afirmações mais enigmáticas, Wittgenstein aproxima sua própria terapia do conceito de certeza, tal como elaborado por Moore a partir do que entende por senso-comum, de algo que poderia soar como sendo pragmatismo — ou melhor, algo que poderia ser compreendido, ou interpretado como relevando de uma concepção pragmatista do significado, evocando os casos mais notórios do ver como no campo da percepção. Ora, o próprio Wittgenstein aplica, neste caso, os conceitos concepção de mundo e de imagem de mundo, e o estudo em questão procura situar o estatuto destes conceitos para esclarecer a aludida menção, e recusa, de um eventual pragmatismo presente em seu pensamento.
Em seu estudo, o professor Michael Soubbotnick dedica-se a apreciar uma solução contemporânea oferecida por um lingúista, A. Culioli, à questão da separação artificial entre sintaxe, semântica e pragmática operada sobre as línguas naturais — separação muito útil, está claro, ao se tratar de linguagens artificiais — que poderia causar dificuldades teóricas como, também, filosóficas. O conceito central introduzido pela teoria linguística de Culioli, é o de operação enunciativa, misto de fato empírico e de regras — ou, “marcadores” de posições de enunciadores, seus pontos de vista no ato de enunciação — inseridos em contextos de aplicação e de uso dos enunciados. Estas operações enunciativas permitiriam dar conta do que dizemos ao usarmos a linguagem, pela apresentação de conjuntos abertos de variações correspondendo aos diferentes enunciados — mistos de regras, sentidos e ações, previamente, pois, às distinções clássicas de Morris e Carnap — em que estariam preservadas a materialidade dos eventos e sua forma lingiiística, Tentativa importante de dar conta de aspectos formais presentes na materialidade de nossa atividade com a linguagem — o que evoca, diretamente, a idéia de gramática dos usos de Wittgenstein.
O professor Paulo de Oliveira aborda, em seu estudo, várias questões que giram em torno da tradução, mas, principalmente, a partir da idéia mais geral de passagens e equivalências entre conjuntos de regras de representação. Desde o Tractatus, Wittgenstein aborda esta questão ao focalizar as relações de afiguração, ou de representação lógica entre signos e objetos, entre pensamento e mundo — ou, ainda, as relações entre as passagens entre os sulcos do disco na vitrola, os sons emitidos e a música na partitura. Exemplos de diferentes casos de passagem entre regras em que identificamos a presença de algo em comum, a permanência de uma forma geral. Em torno dessas questões, várias teorias da tradução transitam da tese de uma forma lógica fundamental à tese, oposta, de um relativismo epistemológico absoluto. O estudo em questão procura evitar ambas as posições extremadas, ao evocar as análises que faz Wittgenstein desde seu primeiro livro até as fases intermediária e final de sua produção filosófica. Sem ter desenvolvido uma teoria da tradução, a terapia elaborada pelo filósofo permite, justamente, evitar as dificuldades filosóficas contidas tanto no essencialismo quanto no relativismo filosóficos.”
ARLEY R. MORENO (org.)
VOLUME 49 — 2007
ISSN: 0103-3147
Índice para catálogo sistemático:
- Filosofia austríaca 193
- Pragmatismo 144.3
OBS. O presente volume da Coleção CLE reúne os trabalhos apresentados e debatidos no IV Colóquio Nacional Wittgenstein/I Colóquio Internacional Wittgenstein, organizados pelo IFCH/Unicamp e ocorridos nos dias 14 e 15 de setembro de 2006. Os textos aqui apresentados são de autoria de Antonia Soulez, Arley Ramos Moreno, Cristiane Maria Cornelia Gottschalk, Horácio L. Martinez, Michael A. Soubbotnik e Paulo Oliveira.
References