A Semântica Transcendental De Kant

Authors

Zeljko Loparic

Synopsis

A Semântica Transcendental De Kant (digital)

 

Catálogo da Coleção CLE

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“Seria difícil negar que, desde o colapso do positivismo lógico há cerca de duas décadas, a filosofia da ciência contemporânea esteja sofrendo uma crise em seus fundamentos. Creio que uma nova abordagem filosófica geral da ciência deveria ser desenvolvida considerando esta última como uma atividade de solução de problemas. Tal abordagem da ciência está claramente em desacordo com a axiomática que dominou o positivismo lógico desde meados dos anos 30.

Várias linhas de pesquisa surgem a partir da concepção heurística da ciência que estou adotando. Poder-se-ia tentar tirar proveito filosófico dos resultados da teoria lógica da computabilidade e da solubilidade, ou desenvolver insights obtidos na psicologia cognitiva e nos estudos da inteligência artificial. Os linguistas contemporâneos oferecem uma pertinente linha de reflexão sobre nossos processos cognitivos superiores em geral. A história da ciência apresenta um grande número de estudos sobre o modo como foram solucionados os problemas científicos que passaram a valer como paradigmáticos. Finalmente, a história da filosofia da ciência também pode nos ensinar sobre a ciência enquanto atividade de solução de problemas. O presente trabalho é uma tentativa de exploração desta última linha de pesquisa.

Tendo chegado à conclusão de que o positivismo lógico estava morto, passei a me perguntar como ele teria nascido. Para minha surpresa, descobri que o positivismo do jovem Carnap não consistia numa teoria da ciência do ponto de vista axiomático, mas sim do ponto de vista heurístico. O primeiro Carnap via a ciência não como uma imagem do mundo, mas como um sistema de conhecimento conceitual sem limites, querendo dizer com isso que não existia questão bem formulada cuja resposta por princípio fosse inatingível pela ciência (Carnap 1961 [1928], § 180). Em outras palavras, a convicção básica de Carnap sobre a ciência era de que “a verdade ou falsidade de qualquer enunciado formado por conceitos científicos pode, em princípio, ser estabelecida” (ibid). Portanto, não me surpreendi com o fato de poder estabelecer que o famoso critério carnapiano de significância cognitiva na realidade equivalia a um conjunto de procedimentos de decisão para enunciados sobre o mundo dos fenômenos.

As concepções sobre os objetivos e limites da ciência que fui levado a atribuir ao primeiro Carnap pareciam diferir tanto daquelas habitualmente atribuídas a ele, quanto daquelas defendidas pelo positivismo lógico posterior. Interessei-me, portanto, em descobrir as origens dessas concepções e as razões de seu desaparecimento da cena principal da filosofia da ciência.

O próprio Carnap auxiliou-me na primeira questão, pois assinalou na Aufban que sua tese da decidibilidade de todas as questões da ciência concordava tanto “com o positivismo quanto com o idealismo” (sbid.), nota final). Ao falar em “positivismo”, Carnap estava se referindo especialmente a Mach. A filosofia que ele chamava de “idealismo” era a de Kant, conforme uma citação que Carnap tirou de Oskar Becker: “De acordo com o princípio do idealismo transcendental, uma questão que seja em princípio (em essência) indecidível [unentscbeidbar, não tem absolutamente nenhum sentido [$7nn]. A ela não corresponde nenhum estado de coisas que pudesse fornecer-lhe uma resposta, pois estados de coisas em princípio inacessíveis à consciência simplesmente não existem” (thid,).

Armou-se, dessa maneira, o palco do presente estudo: decidi descobrir as origens da abordagem da solução de problemas científicos do primeiro Carnap, retornando a Mach e Kant.

O estudo de Kant foi-me sugerido também por Hilbert. No mesmo ano em que o Aufbau de Carnap foi publicado (1928), Hilbert escreveu que o problema de decisão para o cálculo de predicados de primeira ordem era o principal problema da lógica matemática. Não pude deixar de me impressionar com a semelhança implícita entre as capacidades de solução de problemas que Hilbert almejava com seus sistemas formais e a efetividade heurística esperada por Carnap de seu sistema constitucional, Mas, diferentemente de Carnap, Hilbert se reportava repetidamente à teoria kantiana da intuição pura como o quadro para a compreensão de suas próprias concepções sobre a natureza dos símbolos formais. Assim, fui levado à suposição de que Kant deveria necessariamente ser consultado se quiséssemos esclarecer um dos episódios mais interessantes das teorias contemporâneas da solução de problemas, do qual Hilbert e Carnap eram os atores principais.

Minha segunda questão, sobre o desaparecimento dos temas heurísticos da filosofia contemporânea da ciência, foi respondida ao menos parcialmente, quando notei que, depois do Aufbau, Carnap procedeu, para usar uma expressão de Feigl, a uma “hilbertização” de toda a linguagem da ciência, com vistas a oferecer uma teoria geral da solução científica de problemas, e que esse projeto sofreu um golpe decisivo com o aparecimento dos teoremas de limitação de Gódel e Church.

Primeiramente, abordei a teoria da ciência de Mach. Logo ficou claro para mim que a sua “psicologia e lógica de pesquisa”, tal como expostas em Prinsipien der Wármelebre e em Erkenntnis und Irrtum, nada mais eram do que uma teoria da solução de problemas científicos. Separei cuidadosamente a heurística de Mach de sua abordagem histórica e pude então reconstruir, a partir de seus escritos, uma interessante classificação dos problemas científicos e dos métodos de solução de problemas. Descobri que tinha que concordar com a afirmação de G. Polya de que a filosofia da ciência mais tardia de Mach é um clássico da epistemologia heurística.

Cheguei também a uma conclusão inesperada sobre o conceito machiano de estrutura das teorias científicas, a qual me fez rejeitar um dos pontos de vista mais comuns na historiografia contemporânea do positivismo de Mach: o de que ele, sendo um reducionista ontológico, isto é, tendo reduzido as coisas físicas a classes de sensações, era também um reducionista metodológico; isso significa que sua metodologia pretendia reduzir todos os termos científicos a termos que se referem a (classes de) sensações, e todas as proposições científicas a proposições sobre tais referentes.

Constatei que Mach, apesar de defender o monismo, não o introduziu como uma tese filosófica positiva sobre a estrutura do mundo, mas como um princípio capaz de evitar que os cientistas levantassem questões insolúveis, e não propôs que conceitos e enunciados teóricos (incluindo os matemáticos) fossem eliminados da ciência. Pelo contrário, verifiquei que ele insistia fortemente na importância dos construtos de pensamentos arrojados e até mesmo objetivamente implausíveis.

Nesse ponto, Mach tinha sido seguido por Carnap, que também distinguia claramente entre os conceitos científicos que podem ser construídos em seu sistema constitucional — e que são, consequentemente, decidíveis (entscheidungsdefinil) — e os que não podem ser assim construídos. Estes últimos conceitos são introduzidos mediante definições implícitas que têm a forma de um sistema de axiomas e diferem dos conceitos constituídos, por não serem decidíveis e por darem origem a proposições que em geral não obedecem à lei do terceiro excluído. E eu já sabia que, também quanto a este ponto, a historiografia oficial estava errada,

Mach também me ajudou a retornar a Kant, pois ele via na teoria da ciência de Kant uma versão prematura e inadequada de uma psicologia e lógica da pesquisa, isto é, de um programa de pesquisa científica, algo que ele próprio tinha a intenção de estabelecer. Combinando essa concepção da filosofia especulativa de Kant com as de Hilbert e de Becker, citadas por Carnap, não tive dificuldade em descobrir temas heurísticos na filosofia crítica e transcendental de Kant. Restou-me apenas desenvolver esses temas,

Ao fazê-lo, fiquei impressionado com a simplicidade do delineamento geral da filosofia especulativa de Kant, pois evidenciou-se que a crítica e a metafísica da natureza de Kant, que a constituem, poderiam naturalmente ser interpretadas, respectivamente, como uma teoria da solubilidade de problemas inevitáveis da razão especulativa e uma teoria da pesquisa científica no campo da natureza.

Trabalhando a primeira Crítica de Kant, verifiquei que sua tese básica consistia no seguinte teorema de solubilidade: todas as questões impostas à nossa razão por sua natureza ou são insolúveis, ou é possível para nós oferecer-lhes uma resposta definida. Por conseguinte, no domínio da razão pura, nossa ignorância ou é demonstravelmente inevitável, ou deve ser atribuída à nossa preguiça.

A tarefa seguinte foi investigar os fundamentos da prova do teorema de solubilidade. Observei primeiro que esse teorema dizia respeito às proposições sintéticas possíveis e que Kant considerava a classe de proposições solúveis como equivalente à classe das proposições sintéticas possíveis. Proposições analíticas foram deixadas de lado nesse contexto por não contribuírem em absoluto para a ampliação do conhecimento objetivo. Assim, defrontei-me com o novo problema de explicar o que Kant queria dizer com a possibilidade de uma proposição sintética. Sabia que estava seguindo uma pista importante, porque o próprio Kant tinha dito que o problema da possibilidade das proposições sintéticas em geral, sejam a priori ou a posteriori, era a “tarefa suprema” (húchste Aufgabe) da filosofia transcendental. Descobri que a resposta de Kant a esse problema poderia se colocar nos seguintes termos: uma proposição sintética é possível se, em primeiro lugar, todos seus conceitos nãológicos tiverem referentes em um domínio de objetos sensíveis e, em segundo, se sua forma lógica for preenchível ou satisfazível* em um domínio de formas sensíveis (Capítulo 1).

Claramente, a prova do teorema de solubilidade, apoiada numa resposta ao problema da possibilidade dos juízos sintéticos, requeria uma teoria a prin da referência e da verdade. Descobri que a teoria kantiana da referência (e significado) fundamentava-se no conceito de construção, e que sua teoria da verdade repousava na doutrina dos princípios a priori do entendimento. Ambas, tomadas conjuntamente, constituem uma teoria da estrutura dos domínios de entidades sensíveis (puras ou empíricas) nos quais as proposições sintéticas podem ser preenchidas ou satisfeitas. Em outras palavras, a semâántica de Kant era uma teoria a priori da interpretabilidade das representações discursivas que compõem proposições sintéticas sobre representações intuitivas. Esse resultado sugeriu tratamentos sistemáticos e independentes das representações intuitivas (Capítulo 4), da referência e significado dos conceitos (Capítulo 5), assim como da relação de preenchibilidade ou satisfazibilidade entre juízos e objetos (Capítulo 6).

A exposição kantiana de sua semântica transcendental e de sua prova, nela fundamentada, do teorema de solubilidade para proposições sintéticas da razão pura está longe de ser óbvia. Pensei, então, que seria útil refazer seus passos até achar um método. Foi-me possível mostrar que havia um, a saber, o venerável método combinado de análise e síntese dos geômetras gregos. Esse foi um resultado importante porque permitiu organizar e estudar os procedimentos analíticos de Kant e suas provas sintéticas transcendentais, em consonância com um único esquema abrangente (Capítulo 2).

Esses me pareceram ser os pontos principais da crítica kantiana da tazão teórica relevantes para a abordagem que eu fazia. Restava-me, ainda, a tarefa de reconstruir sua metafísica da natureza como uma teoria da ampliação do conhecimento objetivo, o que fiz em dois movimentos.

Em primeiro lugar, refiz a metafísica geral da natureza de Kant, ou sua filosofia transcendental, a partir de um ponto de vista heurístico, mostrando que a doutrina dos princípios a priori do entendimento não apenas determina a estrutura a priori do aparecimento”, mas justifica procedimentos para solucionar, igualmente, problemas objetuais no campo do aparecimento. Enquanto no primeiro papel a doutrina dos princípios a priori do entendimento oferece, como eu disse, o fundamento de uma teoria transcendental da verdade, no segundo papel ela é a base de uma teoria transcendental de algoritmos e de procedimentos heurísticos mais fracos (Capítulo 7). Meu segundo passo consistiu na reconstrução da teoria kantiana da razão como um sistema de construtos de pensamento (ficções) e máximas heurísticas (Capítulo 8). Dessa maneira, cheguei a dois cânones kantianos de pesquisa científica, o cânon doutrinal, para a solução de problemas sobre entidades sensíveis, e o cânon heurístico, para a solução de problemas sobre sistemas de leis dessas entidades. Como não estava desconsiderando nenhum ingrediente importante da metafísica geral da natureza de Kant, concluí que toda a filosofia transcendental de Kant poderia ser vista, de acordo com o que Mach tinha sugerido, como um programa de pesquisa científica para a ciência natural.

Voltei-me, em segundo lugar, para a metafísica especial da natureza de Kant, ou fisiologia. Descobri que sua teoria dinâmica da matéria poderia ser interpretada como um programa « priori de pesquisa para a mecânica racional (Capítulo 9), o que sustentava fortemente minhas conclusões preliminares sobre a natureza da metafísica geral de Kant.

Ao examinar esses aspectos da filosofia especulativa de Kant, fui levado a estabelecer vários outros resultados. Em particular, pude reconstruir, em Kant, uma teoria da razão humana como um dispositivo para a solução de problemas (Capítulo 3). Essa teoria constitui, na verdade, uma contrapartida natural da teoria kantiana da solubilidade e da pesquisa.

Não foi muito difícil prosseguir até o Mach tardio, pois seu monismo pode ser reconstruído como uma reinterpretação do teorema de solubilidade de Kant, ao passo que sua abordagem heurística da atividade científica é, claramente, um eco da teoria kantiana da ampliação do conhecimento objetivo. A classificação de Mach dos problemas e dos procedimentos de solução de problemas, sua distinção entre ciência como resultado e ciência in statu nascendi, entre conceitos fenomênicos e construções do pensamento, todos esses ingredientes centrais de sua lógica de pesquisa podem ser facilmente remontados à Kant.

Minha impressão final foi a de estar diante de uma linha-mestra de desenvolvimento na história da filosofia contemporânea da ciência, que começa com a filosofia transcendental de Kant e prossegue até o primeiro positivismo lógico. Embora surpreso no começo, percebi que esse resultado não era tão surpreendente assim, se posto no contexto histórico. A tese da “linhagem kantiana” de Mach e Carnap dificilmente teria sido uma novidade, para alguém como Vaihinger, pois o autor da Philosophie des Als Ob também foi o fundador da Kant-Studien, onde Carnap publicou sua tese e seus primeiros artigos, bem como dos Annalen der Philosaphie, o periódico que mais tarde se tornou Erkemninis, revista principal dos positivistas lógicos.

Todavia, pareceu-me fora de propósito testar esses resultados por meio de uma pesquisa histórica, ou mesmo compará-los a interpretações existentes de Kant. Pois, desde o começo, eu não queria aprender sobre Kant a partir de outros, mas sim a partir de Kant e de outros sobre a solução de problemas científicos. Meu objetivo ao abordar Kant e Mach não era histórico, mas conceitual. Mach chegou à filosofia pelo estudo de Kant. No entanto, eu não me interessei em provar a influência fatual que Kant pode ter tido sobre um dos principais pensadores positivistas do século XX. Minha tese é a de que temas tipicamente kantianos — isto é, temas que Kant foi o primeiro a introduzir de maneira sistemática — tornaram-se proeminentes, se não efetivamente centrais, na filosofia da ciência do Mach tardio.

Confesso que fiquei cativado pela concepção geral da filosofia especulativa de Kant que fui levado a adotar. Não obstante — insistirei mais uma vez — minha atitude diante da obra de Kant nunca foi a de um comentador. Tudo o que eu realmente quis foi aprender sobre formas de abordar a ciência como uma atividade de solução de problemas. Meus interesses permaneceram sempre os de um filósofo da ciência que se esforça em escapar da crise presente de seu ofício, buscando ajuda no passado.”

 

ZELJKO LOPARIC

 

Volume 41 — 2005

ISSN: 0103-3147 12 edição, 2000 — 22 edição, 2002 — 32 edição, 2005

 

Índice para catálogo sistemático

  1. Filosofia alemã 193
  2. Criticismo (Filosofia) 142.3
  3. Semântica (Filosofia) 149.946

 

OBS. O presente volume da Coleção CLE oferece a tradução, parcialmente reescrita, da Parte I da tese de doutorado de Zeljko Loparic, defendida na Universidade Católica de Louvain, em 1982, sob o título Scientific ProblemSolving in Kant and Mach. Nessa parte, a primeira Crítica é interpretada como teoria da solubilidade de problemas necessários da razão pura teórica – necessários porque impostos pela sua própria natureza, mais precisamente, pelo postulado lógico que pede que seja encontrada, para cada dado empírico condicionado, a totalidade absoluta de suas condições.

References

Coleção CLE - Volume 41

Published

June 5, 2005

How to Cite

LOPARIC, Zeljko. A Semântica Transcendental De Kant. Campinas, Brasil.: Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-UNICAMP),2005. v. Coleção CLE - Volume 41 Disponível em: https://www.cle.unicamp.br/ebooks/index.php/publicacoes/catalog/book/92. Acesso em: 9 may. 2026.